Olhou por entre os dedos a mão fatigada pela rotina. As teclinhas que apareciam, o movimento repetido de ir e vir naquele digitar sem técnica, recheado de sentido, apesar dos pesares. É que queria ler um livro. pensara em descer, ir atrás de sebo, fuçar. Mas pra chegar lá embaixo precisava de dinheiro e isso era coisa que não tinha por aqueles dias.
Voltou ao computador em busca de leitura interessante. Tentava reativar a memória sobre tudo aquilo que guardara no coração; sobre o que leu e não deixou passar. Porque não tinha o hábito de decorar frases ou lembrar dos títulos que lia, as palavras voltavam ao texto e raramente ficavam em si.
Quanto Machado na adolescência, quanta Clarisse. E por fim, nada tinha lido. As palavras deglutidas em sua observação rápida, sua loucura diária de fazer e fazer, não pensava. Até chegar nesse ponto de agora, onde só pensava, não descia pra buscar nada. À janela, procurava leitura; procurava deglutir mais palavras, alguma coisa que ficasse perto do coração e da memória.
Mas não havia nada. Apenas desesperança de encontrar coisa qualquer que resistisse.
Deitou e dormiu, porque não fazia sentido procurar livro que não adianta ler, vida que não existe, fantasia para viver. Vivia naquele momento e nada voltava a si. Pra que? Esquecia, porque é a memória casada com a emoção.