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quinta-feira, 27 de novembro de 2014

chuva

A chuva caia repleta de gotas circunscrevendo a madrugada enquanto eu andava com as chinelas lisas pelo tempo de uso, me escorregando nas pinturas do chão. Mas é que daí eu pisquei. Na minha memória, ele passaria a mão na nuca para sempre, imberbe, boca entreaberta de concentração na matemática. "Irremediavelmente apaixonados pelo resto da vida(*)", mas o resto da vida era muito tempo. Seus pequenos olhos sob as sobrancelhas arqueadas, problema insolúvel sobre a folha de papel e aquele momento congelou, me aquecendo. Concentrado, ele era sempre nu, deixava-se ver por inteiro e minha felicidade sabia que sua entrega não era por minha causa. Pisquei e perdi o ponto, corri pelas vias molhadas e segundos depois não tinha controle. É que, estatelada, do chão, já não dava pra voltar atrás. Fico em dúvida se em alguma ocasião haveria tal possibilidade...
(*) Virginia Woolf, As ondas. Na edição da Novo Século,  página 40.

domingo, 27 de julho de 2014

Inofensivo

Ele lhe disse que era a primeira vez e ela jurou não contar a ninguém. Sabiam, olhando nos olhos, que contavam saborosas mentiras, mas era a conexão o importante na brevidade daquelas horas.

terça-feira, 4 de março de 2014

Confissões de um amor de carnaval

Não posso me conformar que na era de tanta ligeireza tecnológica possa ter me perdido da saia rodada e da flor de cabelo mais lindas que vi no carnaval. É mais ou menos como se fosse 1700, dançássemos na corte uma coreografia pré-moldada e meus acessórios fossem embora na correria, família toda, antes da 12° batida da meia noite. Logo eu e meu smartphone de última geração, GPS atualizado e internet ilimitada. Duas câmeras, dois chips, três redes sociais (foto, mini-blog e outra mais completa, todas muito na moda), três aplicativos de mensagens instantâneas, um aplicativo de vídeo, um de email, outro de compras aéreas, aliás, vários de compra virtual de todo tipo de coisa, até dois aplicativos de relacionamento virtual. Tudo para me conectar. Acho que a graça da vida está na conexão, especialmente entre as pessoas, e eu tinha tudo na palma da minha mão. Notas, calendário, as músicas que fui ouvindo até chegar no bloco, vídeos dos amigos virando algumas doses, fotos das belezas naturais pelo caminho.

Meu smartphone só não tinha bateria. E o smartbrain não tinha uma caneta. A flor e a saia voaram feito passarinho, e valia ter nas mãos; se foram para sempre, perdidas na 4° ou 5° badalada do relógio da Consolação. Me pergunto se foi mesmo real...

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Frenético - Intenso

Tomei muito café e agora preciso de um cigarro pra me acalmar. Não é uma droga de mundo? E quando você fala a verdade, as pessoas preferem tampar o ouvido, “me conte uma história de ninar, quero descansar”. As verdades são tão indeléveis, tão profundas, rasgam a gente em dois, antes e depois, e viramos um cristal quebrado. Como é sensível esse mundo do tocável. Como são sensíveis as pessoas que fingem não existir o sofrimento do outro. Como é estranho.
É uma droga de mundo e o MEU cigarro é o problema. Na minha casa, ao lado da cama que ocupo sozinha, acalmando meus nervos, o cigarro é o problema. Dos outros. Botam umas gentes morrendo na capa pra que eu me sensibilize, mas a gente finge não existir o sofrimento do outro. Eu vejo meu prazer. Subindo pelas minhas pernas, me aquecendo as noites frias e as quentes e as de chuva também. Molhando. Mas também não pode, é pecado, você jovem, velha, barriguda, saradinha, casada, carente, solteira, feliz, donzela ou atriz.
O propósito de isso tudo é que não há propósito algum além de falar e falar sobre aquilo que deixo calar tantas vezes. Já disse que tomei café demais, amanhã vai ser difícil acordar e perceber que nada mudou. Volto à rotina como se não houvesse falado nada. Esses desatinos solitários refratam a luz em tantos ângulos que físico nenhum podia suportar. Nem o meu próprio, esse tanto cigarro, e se eu morrer vai ser porque eu quis. Ora, mentira, todo mundo morre. Querendo ou não. Se é o destino, que eu encare a verdade com três doses de tequila em uma mão só, equilibrando aquilo que consigo na vida. Parece não fazer sentido, mas faz, basta ver quanta coisa a gente carrega nos ombros antes de empacotar. Pra NADA. Pra dizer que pode.
Quando a gente larga tudo, aí é depressão. Porque nem se encher o saco nos permitem mais. Ninguém quer ver a verdade, mas os poetas, médicos e jornalistas jogam na nossa cara o tempo todo que é ela a importante. Queria ver se quem faz o discurso usasse daquilo que diz. A verdade é outra droga, mas é uma droga que se faz para vender. Eu compro a sua e você compra a minha, sabe? E por fim, ela nem existe mesmo, a gente inventa, e se inventa não pode ser verdade. Não absoluta. Não há absoluto. Há Absolut. Umas boas quatro doses, é mais fraca que a tequila.
Ou eu que sou fraca. Essa coisa toda tá me endoidando, acabou meu cigarro e a paz.
Bom pra entrar nessa semana cuidando mais do físico. Me masturbo menos, quem sabe encontro um verdadeiro amor. Alguém que me venda carinho e afeto, qualquer droga que alimente.
É uma merda esse mundo.
Beijos, fui comprar um livro de dormir.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Sobre os 25, 26 e o antes de morrer

Não posso dizer que foi a experiência de quase morte da semana passada que me motivou a escrever esse texto [embora o evento tenha tomado importância maior do que eu gostaria deveria em minha pacata vidinha]. A publicação de um link no face de uma amiga do tumblr de uma desconhecida que me chamou atenção. 25 coisas que eu quero saber aos 25. Confesso que não li.

[pode parecer confuso e conflituoso, mas não é; quis fazer minha lista, sem copiar a da coleguinha]

Lembrei, desse modo esquisito, que eu não fiz nenhuma listinha de coisas que eu queria fazer aos 25. E agora não dá mais tempo, porque, né, faltam 2 meses pros 26.

Eu achava babaca, mais uma dessas de planejamento sem ação, coisa estúpida mesmo. Mas quando você coloca a coisa lá, num papel ou na internet, a coisa toma um rumo de realidade tangível muito mais agradável de tentar botar em prática. Falo isso porque fiz uma lista do tipo quem eu sou/onde estou, quem quero ser/onde quero estar e é lindo como venho me tornando cada vez mais a pessoa que eu quero, onde e quando quero.

Ai eu cai de cabeça numa pedra e quase morri [porra, só acontece comigo]. Tem tudo a ver com a história porque eu me acidentei aos 25. Até domingo nunca tinha tido nenhum trauma, quebra de ossos, nada de interessante. No máximo uma abertura de lábio antes de dançar, mas é texto para outras linhas. E ai eu abro a cabeça quase que nem um melão, momento drama queen da vida, sem saber de uma porção de coisas, sem conhecer mais um milhão.

Então, libriana, vamos botar na balança:

DAQUILO QUE SEI
- Sei de amor, de amar, de ser e não ser amada... Amei (e amo!!) amigos, amigas, namorados, amantes. Amei quem nunca me amou de volta. Amei quem me amou com o mesmo furor, amei quem me entregou o coração. Amo meus pais e minha irmãzinha grande. Amei um montão de crianças. Amo minha afilhada, a criança mais linda do mundo, mesmo que ela esqueça quem eu sou de vez em quando (e não há nada mais belo que reconquistá-la a cada sorriso!). Amei o igual, claro. E o diferente. Amei artistas por suas artes, por seus corpos, por seus amores.
  
E só isso me bastaria ter vivido até agora, mas ia ser chato acabar uma reflexão tão íntima aqui.
  
- Sei um pouquinho de brigar. Briga com melhor amiga, com melhor amigo, com quem amo.
... com quem amei tanto...
  
- Sei de sonhar, e acho que é isso o que mais sei nessa vida.
- Sei de bater a cabeça na pedra de escada
- Sei de ficar horas intermináveis em hospitais
- Sei um pouco da solidão. E não quero saber mais.
- Sei de ballet. Quero sempre saber mais
- Sei de umas falhas de personalidade. Sei que quero mudar.
- Sei de bons livros, alguns.
- Sei de bons filmes
- Sei de sofrimento, de perda e de vários tipos de separações. E se eu pudesse saberia só o que sei mesmo.
- Sei de morar com as melhores amigas do mundo. E sei de morar com amigas e com quem tive inimizade também.
- Sei de viajar sem muito destino e sem hotel.
- Sei de esperar em rodoviária ônibus ou gente que parece que nunca vai chegar
- Sei de praias de São Paulo
- Sei de ser sensível e de ter sensibilidade
- Sei de correr na chuva e preciso de mais chuva especialmente se não houverem escadas no caminho
- Sei de escrever quando aperta o calo, quando o coração dispara, quando a música toca...
- Sei que tenho fé.

DAQUILO QUE NÃO SEI
- Não sei de casar. Não de verdade, embora a experiência com quem não queria casar comigo conte um pouco nesse ponto e dá vontade de rir dessa frase
- Não sei de ter filhos
- Não sei de morar fora do país
- Não sei do meu país
- Não sei de coisas cult, não o quanto gostaria de saber
- Não sei do meu estilo, que anda mudando muito. rs.
- Não sei do meu corte de cabelo
- Na verdade, não sei de cuidar da minha aparência
- Não sei de cuidar de gente do modo que eu gostaria
- Não sei de ser bailarina de verdade. E eu quero. E eu busco. E eu fervo pra saber.
- Não sei de ser fria
- Não sei cuidar de um bichinho. E não vou ter um bichinho ao mudar de casa, porque eu não vou poder cuidar dele ficando 838746654 horas fora de casa. Preciso ser enfática nisso porque é uma discussão constante na minha cabeça.
- Falo que sei, mas não sei de beber que nem adulto quando estou triste. A tristeza me faz ter 15 anos de novo. Nota mental: parar com isso, pelamor.
- Não sei de me perder às vezes. Como diria minha querida Clarisse, genia indomável, "perder-se também é caminho".
- Não sei lidar com distâncias. Preciso trabalhar muito isso.

Apesar da lista não sei ser menor, acho que vou descobrindo mais coisas que não faço ideia dia após dia. Me sinto muito feliz em não ter morrido no domingo. Me sinto grata por existir e poder buscar saber dessas coisas que não sei. Mas estou indo bem.


Bater a cabeça é bom pra chacoalhar os miolinhos. Crise é bom pra crescer, bem ericksoniana (e como eu gosto desse fulano Erik Erickson!)

sábado, 27 de outubro de 2012

Nu em outro

Em certo ponto, resolveu não se envolver em relacionamentos com amor. Sim. Dividir a vida em pré e pós romantismo de livro, esquecer dos contos de fadas com finais felizes. Até porque, se fada madrinha existisse, seria essa a sua função no mundo e nunca lera uma só história em que a fada tivesse outro fado que não fazer princesas felizes.

Fardada com ou sem varinha, foi com seu novo intento, boca, nuca, mão, e o coração não. Mas descobrir se é verdade que sexo com amor é melhor que sem medo não é tarefa fácil para uma moça criada segundo a tradição judaico-cristã; valorize o seu corpo, não o entregue para qualquer um.

Como se viesse embrulhada num papel presente gigante! Como se descobrir os prazeres de estar com alguém por estar com alguém fosse coisa terrível e impensável para uma mulher direita, para uma mulher que se ama acima de tudo. E era quieta, do tipo fofa, que agrada a todos. Pobre, ninguém é tão camaleão a ponto de satisfazer o mundo.

Sérias bobagens deixadas para lá, aventurou-se com o primeiro one night stand. Depois de casada por quatro anos, deitar com outro fora exótico. Ele não sabia o que ela gostava, o que ela queria, e a criatura se viu na estranha posição de ser ativa em seu sexo. Tinha que falar, tinha que pedir, seu desejo exposto de maneira tão visceral e necessária para o prazer. Era difícil, porém estava decidida a tentar quantas vezes fossem necessárias. One se tornou two e three e four...

Rapidamente sentiu se tornar uma maravilhosa amante. Conhecia truques, descobria e lembrava de uma noite para outra como enlouquecer o parceiro, se orgulhava. Gozava e adorava olhar os olhos daquele que morria de prazer em suas mãos, boca, corpo inteiro feito um furacão... Mas sobrava-lhe um vazio triste após os toques profundos e íntimos, carícias talhadas em suor e suspiros. Culpou o amor. Só podia ser sua falta a razão de tamanha infelicidade. Não era mesmo igualmente bom.

Caso de verão ou princesa do era uma vez, aprendera toda a vida a servir, perseguir a felicidade alheia. Culpava a falta e o excesso de amor pela sua incapacidade de se mostrar mulher desejante mais do que desejada, culpava o mundo pela anulação do seu existir.

Abandonou os relacionamentos casuais. Abandonou o amor. E manteve-se no posto fixo de ser mártir procurando pelo no ovo do prazer alheio até a desrealização de sua escolha levar a cabo a pouca vontade que tinha de simplesmente ser.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Loucura wireless

Terminaram porque não havia mais o que seguir e de agora em diante eram os dois dissonantes.

*Toda aquela lenga-lenga sentimental desinteressante*

Eram mesmo mais do mesmo, vaidade neurótica permitindo o follow-up de fim de relacionamento. E nesses tempos de tecnologia avançada, qualquer livrinho de rosto ajudava. Um deles, não se sabe quem, desconectou-se do outro. Não somos mais amigos virtuais, toma essa, cara pálida, mas esqueceu-se de alterar as configurações de privacidade.

Não deixaram de ter amigos em comum - virtuais ou físicos, matemáticos, humanos - e nem se atreviam a perguntar um do outro, de modo a tornar a web rotina fácil de se diagnosticar:

Amig@ publica - Ela comenta - Ele lê - Pausa - Amig@ publica - Ele comenta - Ela lê - Pausa - Amig@ publica - Ele comenta - Ela lê - Pausa - Amig@ publica - Ela comenta - Ele lê - Pausa - Amig@ publica - Ela comenta - Ele comenta - Pausa - Amig@ publica - Ele comenta - Ela comenta - Pausa - Amig@ publica - Ele comenta - Ela comenta - Pausa [...]

Ninguém se fala, todos se leem, fazem-se notar. Hey-hey-hey, I can't get no satisfaction se você não olhar pra mim, todos querem os ex aos seus pés. EX significa que já foi, ué, quem liga?

E nosso casal tema se gabando por aí de sua peculiar maturidade ao terminar a paixão; esquecendo que sem ela só lhes sobrara a loucura.

Sem fio, claro.