A chuva caia repleta de gotas circunscrevendo a madrugada enquanto eu andava com as chinelas lisas pelo tempo de uso, me escorregando nas pinturas do chão. Mas é que daí eu pisquei. Na minha memória, ele passaria a mão na nuca para sempre, imberbe, boca entreaberta de concentração na matemática. "Irremediavelmente apaixonados pelo resto da vida(*)", mas o resto da vida era muito tempo. Seus pequenos olhos sob as sobrancelhas arqueadas, problema insolúvel sobre a folha de papel e aquele momento congelou, me aquecendo. Concentrado, ele era sempre nu, deixava-se ver por inteiro e minha felicidade sabia que sua entrega não era por minha causa. Pisquei e perdi o ponto, corri pelas vias molhadas e segundos depois não tinha controle. É que, estatelada, do chão, já não dava pra voltar atrás. Fico em dúvida se em alguma ocasião haveria tal possibilidade...
(*) Virginia Woolf, As ondas. Na edição da Novo Século, página 40.
arte, cultura, baboseiras, relíquias por aí. saber o que é não importa, só é preciso mexer.
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quinta-feira, 27 de novembro de 2014
sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014
Frenético - Intenso
Tomei muito café e agora preciso de um cigarro pra me
acalmar. Não é uma droga de mundo? E quando você fala a verdade, as pessoas
preferem tampar o ouvido, “me conte uma história de ninar, quero descansar”. As
verdades são tão indeléveis, tão profundas, rasgam a gente em dois, antes e
depois, e viramos um cristal quebrado. Como é sensível esse mundo do tocável.
Como são sensíveis as pessoas que fingem não existir o sofrimento do outro.
Como é estranho.
É uma droga de mundo e o MEU cigarro é o problema. Na minha
casa, ao lado da cama que ocupo sozinha, acalmando meus nervos, o cigarro é o
problema. Dos outros. Botam umas gentes morrendo na capa pra que eu me
sensibilize, mas a gente finge não existir o sofrimento do outro. Eu vejo meu
prazer. Subindo pelas minhas pernas, me aquecendo as noites frias e as quentes
e as de chuva também. Molhando. Mas também não pode, é pecado, você jovem,
velha, barriguda, saradinha, casada, carente, solteira, feliz, donzela ou
atriz.
O propósito de isso tudo é que não há propósito algum além
de falar e falar sobre aquilo que deixo calar tantas vezes. Já disse que tomei
café demais, amanhã vai ser difícil acordar e perceber que nada mudou. Volto à
rotina como se não houvesse falado nada. Esses desatinos solitários refratam a
luz em tantos ângulos que físico nenhum podia suportar. Nem o meu próprio, esse
tanto cigarro, e se eu morrer vai ser porque eu quis. Ora, mentira, todo mundo
morre. Querendo ou não. Se é o destino, que eu encare a verdade com três doses
de tequila em uma mão só, equilibrando aquilo que consigo na vida. Parece não
fazer sentido, mas faz, basta ver quanta coisa a gente carrega nos ombros antes
de empacotar. Pra NADA. Pra dizer que pode.
Quando a gente larga tudo, aí é depressão. Porque nem se
encher o saco nos permitem mais. Ninguém quer ver a verdade, mas os poetas,
médicos e jornalistas jogam na nossa cara o tempo todo que é ela a importante.
Queria ver se quem faz o discurso usasse daquilo que diz. A verdade é outra
droga, mas é uma droga que se faz para vender. Eu compro a sua e você compra
a minha, sabe? E por fim, ela nem existe mesmo, a gente inventa, e se inventa
não pode ser verdade. Não absoluta. Não há absoluto. Há Absolut. Umas boas
quatro doses, é mais fraca que a tequila.
Ou eu que sou fraca. Essa coisa toda tá me endoidando,
acabou meu cigarro e a paz.
Bom pra entrar nessa semana cuidando mais do físico. Me
masturbo menos, quem sabe encontro um verdadeiro amor. Alguém que me venda
carinho e afeto, qualquer droga que alimente.
É uma merda esse mundo.
Beijos, fui comprar um livro de dormir.
quinta-feira, 26 de dezembro de 2013
Férias
O sal da água poderia disfarçar as lágrimas, mas nem toda a imensidão do mar é suficiente para levar embora aquilo que foi necessário viver... E é com essa consciência que deixo o peso da vida no oceano, guardando toda a sublime sensação da maré cheia a me navegar...
sábado, 24 de agosto de 2013
Para Ana
Em que momento um maestro enxerga o artista além do aluno? A maturidade além da pincelada, do movimento preciso da perna, da fala decorada...? É a comunicação entre dois seres humanos, além da palavra, pelos olhos, poros e movimentos que define a magia deste momento. E o maestro, que anseia ser o precursor de tal maturação do aluno, deve buscar humildade em sua alma para compreender que este processo muito interno tem diversos contribuidores. É momento do florescer do estudante, que passa a inspirar e andar lado a lado de quem sempre lhe havia tomado a frente..
quinta-feira, 15 de agosto de 2013
Dearest friend
Quando duas almas complementares se encontram, não há distância ou tempo que as separem. Pois o amor entre elas se manifesta por um espectro de tamanho colorido que a compreensão de um sem o outro se torna impossível.
quinta-feira, 7 de março de 2013
Reflexão
A beleza da vida reside em tudo o que é fugidio. A mão do outro tocando a tez molhada, a expiração perto da boca, o olhar desviado pela primeira vez. É a experiência singular que define os frames coados pela memória, frações de segundo levadas para sempre ao eterno. O regurgitar da lembrança transforma os milésimos em milhões, colore ou romanceia em preto e branco o que já era belo. Lapida o diamante e faz da saudade um raio de sol certeiro, impossível de resistir; deixa o momento ao alcance das mãos, tão perto... É apenas reflexo no espelho que engana fingindo voltar.
Mas quando a beleza dá lugar ao vazio, a esperança sussurra: há mais segundos do que se imagina...
Mas quando a beleza dá lugar ao vazio, a esperança sussurra: há mais segundos do que se imagina...
quinta-feira, 29 de novembro de 2012
Um pedacinho do livro
"Sentia-se condenado a sentir o que lhe era profundo, a
profanar o amor, deixar-se arder em toda a crueldade. Sua vida era uma grande
tragédia e mesmo quando decidira acabar de vez com esse conto de mau gosto,
fora mal sucedido. Pensava ser pela sua falta de competência em ir até o fim de
ato qualquer, mas se enganava – coisa habitual de Bruno – porque não queria
morrer; se sentia culpado por todas as maleficências que alcançaram sua família
e todos que amava. Ficar sozinho parecia ser a melhor punição para todos os
seus pecados: traições, mentiras, angústias que causara nas mulheres ao seu
redor.
E tudo parecia girar em torno de seu coração marcado a
ferrete."
Quem sabe é um bom começo...
sábado, 27 de outubro de 2012
Nu em outro
Em certo ponto, resolveu não se envolver em relacionamentos com amor. Sim. Dividir a vida em pré e pós romantismo de livro, esquecer dos contos de fadas com finais felizes. Até porque, se fada madrinha existisse, seria essa a sua função no mundo e nunca lera uma só história em que a fada tivesse outro fado que não fazer princesas felizes.
Fardada com ou sem varinha, foi com seu novo intento, boca, nuca, mão, e o coração não. Mas descobrir se é verdade que sexo com amor é melhor que sem medo não é tarefa fácil para uma moça criada segundo a tradição judaico-cristã; valorize o seu corpo, não o entregue para qualquer um.
Como se viesse embrulhada num papel presente gigante! Como se descobrir os prazeres de estar com alguém por estar com alguém fosse coisa terrível e impensável para uma mulher direita, para uma mulher que se ama acima de tudo. E era quieta, do tipo fofa, que agrada a todos. Pobre, ninguém é tão camaleão a ponto de satisfazer o mundo.
Sérias bobagens deixadas para lá, aventurou-se com o primeiro one night stand. Depois de casada por quatro anos, deitar com outro fora exótico. Ele não sabia o que ela gostava, o que ela queria, e a criatura se viu na estranha posição de ser ativa em seu sexo. Tinha que falar, tinha que pedir, seu desejo exposto de maneira tão visceral e necessária para o prazer. Era difícil, porém estava decidida a tentar quantas vezes fossem necessárias. One se tornou two e three e four...
Rapidamente sentiu se tornar uma maravilhosa amante. Conhecia truques, descobria e lembrava de uma noite para outra como enlouquecer o parceiro, se orgulhava. Gozava e adorava olhar os olhos daquele que morria de prazer em suas mãos, boca, corpo inteiro feito um furacão... Mas sobrava-lhe um vazio triste após os toques profundos e íntimos, carícias talhadas em suor e suspiros. Culpou o amor. Só podia ser sua falta a razão de tamanha infelicidade. Não era mesmo igualmente bom.
Caso de verão ou princesa do era uma vez, aprendera toda a vida a servir, perseguir a felicidade alheia. Culpava a falta e o excesso de amor pela sua incapacidade de se mostrar mulher desejante mais do que desejada, culpava o mundo pela anulação do seu existir.
Abandonou os relacionamentos casuais. Abandonou o amor. E manteve-se no posto fixo de ser mártir procurando pelo no ovo do prazer alheio até a desrealização de sua escolha levar a cabo a pouca vontade que tinha de simplesmente ser.
Fardada com ou sem varinha, foi com seu novo intento, boca, nuca, mão, e o coração não. Mas descobrir se é verdade que sexo com amor é melhor que sem medo não é tarefa fácil para uma moça criada segundo a tradição judaico-cristã; valorize o seu corpo, não o entregue para qualquer um.
Como se viesse embrulhada num papel presente gigante! Como se descobrir os prazeres de estar com alguém por estar com alguém fosse coisa terrível e impensável para uma mulher direita, para uma mulher que se ama acima de tudo. E era quieta, do tipo fofa, que agrada a todos. Pobre, ninguém é tão camaleão a ponto de satisfazer o mundo.
Sérias bobagens deixadas para lá, aventurou-se com o primeiro one night stand. Depois de casada por quatro anos, deitar com outro fora exótico. Ele não sabia o que ela gostava, o que ela queria, e a criatura se viu na estranha posição de ser ativa em seu sexo. Tinha que falar, tinha que pedir, seu desejo exposto de maneira tão visceral e necessária para o prazer. Era difícil, porém estava decidida a tentar quantas vezes fossem necessárias. One se tornou two e three e four...
Rapidamente sentiu se tornar uma maravilhosa amante. Conhecia truques, descobria e lembrava de uma noite para outra como enlouquecer o parceiro, se orgulhava. Gozava e adorava olhar os olhos daquele que morria de prazer em suas mãos, boca, corpo inteiro feito um furacão... Mas sobrava-lhe um vazio triste após os toques profundos e íntimos, carícias talhadas em suor e suspiros. Culpou o amor. Só podia ser sua falta a razão de tamanha infelicidade. Não era mesmo igualmente bom.
Caso de verão ou princesa do era uma vez, aprendera toda a vida a servir, perseguir a felicidade alheia. Culpava a falta e o excesso de amor pela sua incapacidade de se mostrar mulher desejante mais do que desejada, culpava o mundo pela anulação do seu existir.
Abandonou os relacionamentos casuais. Abandonou o amor. E manteve-se no posto fixo de ser mártir procurando pelo no ovo do prazer alheio até a desrealização de sua escolha levar a cabo a pouca vontade que tinha de simplesmente ser.
sexta-feira, 28 de setembro de 2012
Apenas pontuando um update
Foi aí que, nesse dia gelado da capital, acordei tentada a escrever. Não porque me apareceu uma inspiração em sonho, mas pela necessidade de dar vida a fantasia que vive em mim sem cindir com a realidade, claro.
O melhor texto? Em definitivo, não. O importante é que, diante de minha agonia, consegui retomar o meu projeto de livro.
Só pra pontuar, porque foi uma pequena evolução causada por revoluções inside my skin.
O melhor texto? Em definitivo, não. O importante é que, diante de minha agonia, consegui retomar o meu projeto de livro.
Só pra pontuar, porque foi uma pequena evolução causada por revoluções inside my skin.
sexta-feira, 14 de setembro de 2012
Loucura wireless
Terminaram porque não havia mais o que seguir e de agora em diante eram os dois dissonantes.
*Toda aquela lenga-lenga sentimental desinteressante*
Eram mesmo mais do mesmo, vaidade neurótica permitindo o follow-up de fim de relacionamento. E nesses tempos de tecnologia avançada, qualquer livrinho de rosto ajudava. Um deles, não se sabe quem, desconectou-se do outro. Não somos mais amigos virtuais, toma essa, cara pálida, mas esqueceu-se de alterar as configurações de privacidade.
Não deixaram de ter amigos em comum - virtuais ou físicos, matemáticos, humanos - e nem se atreviam a perguntar um do outro, de modo a tornar a web rotina fácil de se diagnosticar:
Amig@ publica - Ela comenta - Ele lê - Pausa - Amig@ publica - Ele comenta - Ela lê - Pausa - Amig@ publica - Ele comenta - Ela lê - Pausa - Amig@ publica - Ela comenta - Ele lê - Pausa - Amig@ publica - Ela comenta - Ele comenta - Pausa - Amig@ publica - Ele comenta - Ela comenta - Pausa - Amig@ publica - Ele comenta - Ela comenta - Pausa [...]
Ninguém se fala, todos se leem, fazem-se notar. Hey-hey-hey, I can't get no satisfaction se você não olhar pra mim, todos querem os ex aos seus pés. EX significa que já foi, ué, quem liga?
E nosso casal tema se gabando por aí de sua peculiar maturidade ao terminar a paixão; esquecendo que sem ela só lhes sobrara a loucura.
Sem fio, claro.
*Toda aquela lenga-lenga sentimental desinteressante*
Eram mesmo mais do mesmo, vaidade neurótica permitindo o follow-up de fim de relacionamento. E nesses tempos de tecnologia avançada, qualquer livrinho de rosto ajudava. Um deles, não se sabe quem, desconectou-se do outro. Não somos mais amigos virtuais, toma essa, cara pálida, mas esqueceu-se de alterar as configurações de privacidade.
Não deixaram de ter amigos em comum - virtuais ou físicos, matemáticos, humanos - e nem se atreviam a perguntar um do outro, de modo a tornar a web rotina fácil de se diagnosticar:
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E nosso casal tema se gabando por aí de sua peculiar maturidade ao terminar a paixão; esquecendo que sem ela só lhes sobrara a loucura.
Sem fio, claro.
quinta-feira, 16 de agosto de 2012
Aquele drama
Tem que gostar de sofrer
Pra gostar de você
Fugidio como as ondas que vão
No meu mar de ilusão
Em cada gesto, um afeto
Um bocado de cor
Que fere qualquer peito aberto
Sedento de amor
À espera, um sinal que não quer entregar
Aquilo que fica guardado
Batendo forte, no peito calado
É conversa de bar
Poesia da história mais fria
Quentura divina desta aventura
Sossego faceiro desgraçando o ego
instiga a memória à voltar pra você
Pra gostar de você
Fugidio como as ondas que vão
No meu mar de ilusão
Em cada gesto, um afeto
Um bocado de cor
Que fere qualquer peito aberto
Sedento de amor
À espera, um sinal que não quer entregar
Aquilo que fica guardado
Batendo forte, no peito calado
É conversa de bar
Poesia da história mais fria
Quentura divina desta aventura
Sossego faceiro desgraçando o ego
instiga a memória à voltar pra você
domingo, 15 de julho de 2012
Procura
Olhou por entre os dedos a mão fatigada pela rotina. As teclinhas que apareciam, o movimento repetido de ir e vir naquele digitar sem técnica, recheado de sentido, apesar dos pesares. É que queria ler um livro. pensara em descer, ir atrás de sebo, fuçar. Mas pra chegar lá embaixo precisava de dinheiro e isso era coisa que não tinha por aqueles dias.
Voltou ao computador em busca de leitura interessante. Tentava reativar a memória sobre tudo aquilo que guardara no coração; sobre o que leu e não deixou passar. Porque não tinha o hábito de decorar frases ou lembrar dos títulos que lia, as palavras voltavam ao texto e raramente ficavam em si.
Quanto Machado na adolescência, quanta Clarisse. E por fim, nada tinha lido. As palavras deglutidas em sua observação rápida, sua loucura diária de fazer e fazer, não pensava. Até chegar nesse ponto de agora, onde só pensava, não descia pra buscar nada. À janela, procurava leitura; procurava deglutir mais palavras, alguma coisa que ficasse perto do coração e da memória.
Mas não havia nada. Apenas desesperança de encontrar coisa qualquer que resistisse.
Deitou e dormiu, porque não fazia sentido procurar livro que não adianta ler, vida que não existe, fantasia para viver. Vivia naquele momento e nada voltava a si. Pra que? Esquecia, porque é a memória casada com a emoção.
Voltou ao computador em busca de leitura interessante. Tentava reativar a memória sobre tudo aquilo que guardara no coração; sobre o que leu e não deixou passar. Porque não tinha o hábito de decorar frases ou lembrar dos títulos que lia, as palavras voltavam ao texto e raramente ficavam em si.
Quanto Machado na adolescência, quanta Clarisse. E por fim, nada tinha lido. As palavras deglutidas em sua observação rápida, sua loucura diária de fazer e fazer, não pensava. Até chegar nesse ponto de agora, onde só pensava, não descia pra buscar nada. À janela, procurava leitura; procurava deglutir mais palavras, alguma coisa que ficasse perto do coração e da memória.
Mas não havia nada. Apenas desesperança de encontrar coisa qualquer que resistisse.
Deitou e dormiu, porque não fazia sentido procurar livro que não adianta ler, vida que não existe, fantasia para viver. Vivia naquele momento e nada voltava a si. Pra que? Esquecia, porque é a memória casada com a emoção.
domingo, 15 de janeiro de 2012
Arquivo da Memória
Textos que quis trazer do outro blog
Escrever pode
ajudar – 20/11/11
É muito triste
pensar em quantas pessoas queridas a gente perde ao longo da vida por pura
estupidez. Pela nossa, alheia ou ainda pela união das duas.
É difícil conter as lágrimas por enquanto. Eu só percebo quando uma ferida fecha quando a memória toca e não arde mais. No momento parece que a ferida é a mesma de antes, como aquela que eu tenho no pé quando volto a dançar. A pelezinha que sai do peito do meu pé direito toda vez que ajoelho depois de um salto. No entanto, eu sempre volto. Com band-aid, esparadrapo, micropore, eu sempre volto a dançar e fazer essa movimentação faz parte.
A pelezinha do coração que sai já saiu antes pelo mesmo motivo. E por mais que arda muito agora, eu não posso e muito menos quero parar de viver. E o mais importante é querer, assim como eu não quero devolver nada agora. Teve uma hora que ir embora de São Carlos parou de doer. E a memória passeia bastante pelo coração desta desterrada sem machucar. Mas foi necessária uma adaptação ao novo ambiente. Não que eu me sinta completa ou completamente feliz, pois a cada dia penso em me colocar numa posição diferente até achar o meu lugar.
E assim será, dessa vez e da próxima. Porque é isso que parece me incomodar mais, meu coração, assim como o peito do meu pé, cicatriza, mas sempre terá esse lugar onde a pele é mais frágil.
É difícil conter as lágrimas por enquanto. Eu só percebo quando uma ferida fecha quando a memória toca e não arde mais. No momento parece que a ferida é a mesma de antes, como aquela que eu tenho no pé quando volto a dançar. A pelezinha que sai do peito do meu pé direito toda vez que ajoelho depois de um salto. No entanto, eu sempre volto. Com band-aid, esparadrapo, micropore, eu sempre volto a dançar e fazer essa movimentação faz parte.
A pelezinha do coração que sai já saiu antes pelo mesmo motivo. E por mais que arda muito agora, eu não posso e muito menos quero parar de viver. E o mais importante é querer, assim como eu não quero devolver nada agora. Teve uma hora que ir embora de São Carlos parou de doer. E a memória passeia bastante pelo coração desta desterrada sem machucar. Mas foi necessária uma adaptação ao novo ambiente. Não que eu me sinta completa ou completamente feliz, pois a cada dia penso em me colocar numa posição diferente até achar o meu lugar.
E assim será, dessa vez e da próxima. Porque é isso que parece me incomodar mais, meu coração, assim como o peito do meu pé, cicatriza, mas sempre terá esse lugar onde a pele é mais frágil.
Inquietações
– 10/10/11
Cada vez que penso numa zona de
conforto, me aflijo. Até concordo com essa coisa Piagetiana do conflito, da
assimilação e da acomodação. Parece-me que é isso mesmo que move a gente, o
incômodo, e é certo que outros (Freud, Vygotsky, Klein) já falaram sobre
esse assunto. O que me "incomoda" é como lidamos com essa situação na
atualidade, tendo em vista que o mundo (a sociedade, as pessoas, everybody),
nos bombardeia com a idéia de cura rápida. Uma coisa meiofast-food mesmo.
Não parece ser permitido o tempo do sofrimento, da elaboração para a acomodação
de novos esquemas. Se dói a gente toma um remedinho. E toma um remedinho porque
não pode parar. Como assim, não pode parar? Como se não fossemos sujeitos de
nossa própria vida. Talvez, provavelmente, essa desapropriação de si seja
resultado de um processo sócio-histórico-econômico. Onde o trabalho toma parte
primordial da existência [adendo da transcritora: o produzir parece ter esse
papel, mais que o trabalho]. E com 80% da palavra trabalho quero dizer
chefe. Em última instância, o chefe é o dinheiro. Ficar doente causa
improdutividade do indivíduo e consequente improdutividade da organização. E se
a doença física é questionada e deve ser provada, as doenças da ordem da psique são
ignoradas, até mesmo quando se tornam físicas. Não há tempo para resolver o
incômodo nem para assimilar, tampouco para colocar as coisas no
lugar. Não há tempo para respirar antes da nova descarga do corpo.
Acho que a busca pela felicidade hoje
é a busca por um "colocar as coisas no lugar" [e aquietar o
"espírito"]. Ao mesmo tempo, me parece que a natureza humana
busca o ciclo, o aprender continuamente, o frustrar e o recolocar. Procurar a
felicidade na estabilidade (e nos livros de auto-ajuda) me parece bastante
fugaz. É como descer uma montanha com uma corda de meio metro acreditando que
ela vai aumentar por algum milagre. Talvez seja a hora de carar quando a corda
acaba, aceitar que acabou, recolhê-la e pensar em como continuar descendo; [o instrumento
está dado, a gente só tem que usar...]
tem ou sem Graça? – 28/09/11
Tudo parecia em preto e branco. Logo
hoje que vestira blusa verde, echarpe azul, óculos roxo. O tempo, o calor do
dia, parecia vencer-lhe pelo cansaço e tudo o que ela fazia era esperar. A
Graça via a noite passar sentada na janela do quarto enquanto ouvia sua música
favorita - o vaivém dos carros lá embaixo.
A Graça queria ir embora.
Mas por alguma razão deixava-se estar
no marasmo da rotina estafante. Marasmo... água. Tinha tantas vontades, mas a
visita a cachoeira era distante da sua realidade. Até perceber que a melhor
coisa a fazer era simplesmente fazer.
E a Graça se perdeu no mundo.
À sombra do pensamento – 04/09/11
Por alguns minutos resolvi pensar o
que significaria "a so(m)bra do pensamento". No dia em que resolvi
colocar esse subtítulo, por assim dizer, no blog, eu tinha pensado nos sentidos
de sombra e de sobra.
Sobra, seria simplesmente o que resta
do pensamento para ser escrito, aquilo que seria normalmente descartado. Então
o blog seria o lugar do fim das minhas idéias, da borra que ficou no fundo da
xícara. O blog seria o lugar do meu lixo externo, do lixo que consumo em minha
cabeça, nas entranhas, no coração.
Sombra, pensei ainda na mesma linha.
Seria o que não é o principal, o que fica pra trás quando o sol ou a luz batem.
É o que nos segue e a gente não presta atenção; a não ser que não esteja ali. O
blog era o lugar de olhar para a minha sombra como o prato primeiro a ser
ressignificado. Não, a minha sombra não. A Sombra do meu pensamento.
E o pensamento me traz uma sensação
de efemeridade. Isso porque a gente pensa uma porção de coisas que se vão com o
tempo, dure este 5 segundos ou 10 anos. Mas o pensamento que a gente escreve e
guarda, fica. Porque a memória é curta pra armazenar tanta frase, tanta idéia,
tanta sabedoria que a gente acumula ao longo dos anos. E pra isso existem os
livros. E pra mim, os blogs.
Mas hoje eu estava pensando
diferente. Eu olhei para esta frase e achei que ficaria melhor sem o parênteses
e com uma crase. À sombra do pensamento. Hoje eu achei que o melhor local para
estar era embaixo do meu pensamento, como a gente se abriga do sol embaixo de
uma árvore. E eu fiquei olhando a vida dalí, com a brisa fresca da tarde
batendo em meus cabelos e levando-os para longe longe...
Talvez ficar à sombra do pensamento
funcione como meu lugar de acalento, como se eu trocasse a gaveta da minha
cômoda, onde eu estava apertada e olhando pelas frestas, por essa grande árvore
que se chama "minha cabeça". Porque é uma árvore frutífera, que tem
folhas suficientes para me abrigar da luz, do calor. Onde eu posso sentar e
olhar sem medo.
Sobre o que toca enquanto tento me
esquecer – 28/08/11
A música preenchia meu espírito e
arrancava minhas lágrimas violentamente, como se representasse algo que eu
poderia ter vivido e não vivi. Sua grandeza melodiosa me enlevava e incomodava,
sentimento ambíguo muito comum na situação que eu vivia. Quando a gente perde
não sabe se está vazio do outro ou cheio de tristezas próprias. Prefiro o que
seja meu. E se o fim é triste, que seja intenso como foi o início.
Sigo ouvindo meu adágio cheio de
chorosos violinos esperando os pratos e tambores vívidos da coda.
Ao ouvir o Adágio da Rosa, from
Sleeping Beauty
Resiliência – 22/10/09
Estava de costas para ele, à janela.
Observava de longe a luz acesa esquecida em sua casa, distante algumas quadras.
Ele, ainda na cama, chamava-a de volta, como um diabético, que não pode ter seu
doce. Mas já a saboreara outras vezes; não entendia essa sua resistência, não
parecia estar cansada e isso seu vigor em lhe dar prazer revelara. Ela estava
distante, pediu para acender um cigarro e ele não deixou.
Fechou os olhos então. Estava nua à janela, cabelos ao vento suave, aquele era o inicio de primavera mais interessante de sua vida, tinha certeza. Por cima de seu ombro direito podia ver seus olhos verdes iluminados pela luz de fora. Estava cansado, seu corpo repousava sobre a cama, numa tranqüilidade muito sua. Piscava lentamente para ela, com o sorriso carnudo de sua boca muito vermelha. Ela suspirou e pediu um cigarro. Estendeu-lhe a mão, ela acendeu. Daquele vulto curvilíneo ele podia ver a fumaça serpentear para fora do quarto. Ela se preocupou com o cheiro e pediu que lhe abrisse a bolsa e achasse um creme de mãos qualquer esquecido há dias. As mãos cheias de rosa tocaram-lhe as pernas e as coxas e subiram até o rosto. Fitaram-se. Nada mais importava, estavam ali, a sós, íntimos. Naquele quarto onde tantas vezes se desencontraram.
Abriu os olhos. “Preciso ir”, disse secamente e ele continuou sem entender. Ela vestiu sua blusa, ele a calça. O caminho até a porta de entrada parecia longo, inóspito e, no fim, era apenas silêncio, limite dos segredos de cada um. Foi que o verde dos seus olhos lhe apareceu como um raio fulminante, na altura da cozinha, como se representasse uma mudança de planos. Ela titubeou, claramente, e os dois compreenderam a mentira de quando ele a perguntara sobre o seu apreço. Acenou com a cabeça. O outro se tornara mero coadjuvante em sua história. Cada vez que fechasse os olhos enxergaria os seus, de ninguém mais. Essa era a sua sina.
Fechou os olhos então. Estava nua à janela, cabelos ao vento suave, aquele era o inicio de primavera mais interessante de sua vida, tinha certeza. Por cima de seu ombro direito podia ver seus olhos verdes iluminados pela luz de fora. Estava cansado, seu corpo repousava sobre a cama, numa tranqüilidade muito sua. Piscava lentamente para ela, com o sorriso carnudo de sua boca muito vermelha. Ela suspirou e pediu um cigarro. Estendeu-lhe a mão, ela acendeu. Daquele vulto curvilíneo ele podia ver a fumaça serpentear para fora do quarto. Ela se preocupou com o cheiro e pediu que lhe abrisse a bolsa e achasse um creme de mãos qualquer esquecido há dias. As mãos cheias de rosa tocaram-lhe as pernas e as coxas e subiram até o rosto. Fitaram-se. Nada mais importava, estavam ali, a sós, íntimos. Naquele quarto onde tantas vezes se desencontraram.
Abriu os olhos. “Preciso ir”, disse secamente e ele continuou sem entender. Ela vestiu sua blusa, ele a calça. O caminho até a porta de entrada parecia longo, inóspito e, no fim, era apenas silêncio, limite dos segredos de cada um. Foi que o verde dos seus olhos lhe apareceu como um raio fulminante, na altura da cozinha, como se representasse uma mudança de planos. Ela titubeou, claramente, e os dois compreenderam a mentira de quando ele a perguntara sobre o seu apreço. Acenou com a cabeça. O outro se tornara mero coadjuvante em sua história. Cada vez que fechasse os olhos enxergaria os seus, de ninguém mais. Essa era a sua sina.
Essa
é a história de Carla... – 13/05/09
... é verdadeira. Aconteceu com uma amiga de
uma amiga minha.
Carla era uma menina feia e ele não ligava. Não que a amasse de verdade... Era o máximo que conseguira arrumar, após anos procurando pela mulher perfeita. Pensava que estes anos não valeram de nada; algumas imperfeitas se perderam pelo caminho - eram mais bonitas ou inteligentes que Carla.
Queria uma mulher para os outros. Alguém que os colegas invejassem, desejassem, adorassem - e que fosse apenas dele. Passara muito tempo sendo chamado de incoveniente, chato, insuportável e outros adjetivos menos apropriados para ficar com qualquer uma. Queria uma mulher para recordar.
Certa vez encontrou moça interessante, inteligente, brilhante. Era uma excelente parceira para todas as horas, tornou-se sua melhor amiga; paciente, ouvia-lha com uma atenção que ninguém lhe dispunha... Apaixonou-se por ela, e ela não por ele. A coisa toda é que ele era um cara bacana, mas não era seu irmão.
Fez de um tudo. Enlouqueceu, descabelou-se, futricou, contou mentiras. Nada adiantou. Ela era do irmão e os dois combinavam como bom queijo com bom vinho, numa mistura refinada de dar dó. Emburreceu-se e voltou à sua procura, enquanto o irmão levava, mais uma vez, os louros e a loira da vitória. Ela era apenas uma mulher para recordar.
E assim, fez história com a pobre Carla.
Ela acreditava que seu principe viria em um cavalo branco salvar-lhe dos homens terríveis que lhe apareceram na vida. Eram todos uns cachorros. E lindos. Já não procurava mais beleza nas flores, só queria alguém sem espinhos e isso tudo era compreensível; vivera com seu pai apenas, um homem indelicado e de hábitos grotescos.
A coisa toda é que Carla é tão sem graça que não quero discorrer sobre ela. Mas a mulher encontrou no homem a delicadeza de dama que esperava.
E nessa imperfeição e incorreção fizeram-se amantes. Completaram-se, e por menos que pareça um conto de fadas, vivem felizes até hoje. Ora, isso é verdade, aconteceu com uma amiga de uma amiga minha.
Carla era uma menina feia e ele não ligava. Não que a amasse de verdade... Era o máximo que conseguira arrumar, após anos procurando pela mulher perfeita. Pensava que estes anos não valeram de nada; algumas imperfeitas se perderam pelo caminho - eram mais bonitas ou inteligentes que Carla.
Queria uma mulher para os outros. Alguém que os colegas invejassem, desejassem, adorassem - e que fosse apenas dele. Passara muito tempo sendo chamado de incoveniente, chato, insuportável e outros adjetivos menos apropriados para ficar com qualquer uma. Queria uma mulher para recordar.
Certa vez encontrou moça interessante, inteligente, brilhante. Era uma excelente parceira para todas as horas, tornou-se sua melhor amiga; paciente, ouvia-lha com uma atenção que ninguém lhe dispunha... Apaixonou-se por ela, e ela não por ele. A coisa toda é que ele era um cara bacana, mas não era seu irmão.
Fez de um tudo. Enlouqueceu, descabelou-se, futricou, contou mentiras. Nada adiantou. Ela era do irmão e os dois combinavam como bom queijo com bom vinho, numa mistura refinada de dar dó. Emburreceu-se e voltou à sua procura, enquanto o irmão levava, mais uma vez, os louros e a loira da vitória. Ela era apenas uma mulher para recordar.
E assim, fez história com a pobre Carla.
Ela acreditava que seu principe viria em um cavalo branco salvar-lhe dos homens terríveis que lhe apareceram na vida. Eram todos uns cachorros. E lindos. Já não procurava mais beleza nas flores, só queria alguém sem espinhos e isso tudo era compreensível; vivera com seu pai apenas, um homem indelicado e de hábitos grotescos.
A coisa toda é que Carla é tão sem graça que não quero discorrer sobre ela. Mas a mulher encontrou no homem a delicadeza de dama que esperava.
E nessa imperfeição e incorreção fizeram-se amantes. Completaram-se, e por menos que pareça um conto de fadas, vivem felizes até hoje. Ora, isso é verdade, aconteceu com uma amiga de uma amiga minha.
Bolsa amarela – 18/11/08
Sabe, às vezes tudo o que eu queria era um
bolsa amarela, pra levar meu quintal a tiracolo.
O dia em que a mãe lhe
quebrou o coração - Fevereiro 03, 2008
"Você
não mora mais aqui, cale a boca".
Depois dessa enfática afirmação, resolvi calar-me e escutar a interessante discussão que prosseguia. E, de fato, não me restava falar mais nada. Já não morava na casa há dois anos e não podia dar qualquer opinião contrária a da pequena; bastava para ouvir deliciosas frases como a supracitada. Mas entendo a sua chateação.
A mãe não aguentava mais os cachorros e suas cacas no quintal; ela limpava, alimentava-os, comprava os produtos necessários para manter a ordem na casa. E urrava de dor cada vez que voltava para dentro, depois de lavar o extenso quintal, pois a coluna reclamava.
A pequena era apaixonada pelos bichos. Tirava dezenas de fotos diariamente, brincava com eles. Naqueles seus quase 15 anos não tinha muitos grandes amigos, salvo pelos dois saltitantes cachorros e uma menina, de quem não lembro ao certo o nome.
Um deles já era velho. Seus primeiros passos foram dados para acompanhar a pequena, que dava as suas primeiras pedaladas; eram felizes juntos, desde então. Ele só obedecia à ela. Era um fujão. Há alguns anos, comeu o portão de madeira que lhe fechava a casa, para dar suas voltinhas pela rua e atazanar a vizinhança. Mas bastava a menina aparecer, com certa rigidez no rosto, para que voltasse, sem dono, rabo entre as pernas. O problema era que ele nunca passeava com ela.
O outro era mais novo. Espuleta e enlouquecido, o outro. Saltava em pessoa qualquer que chegasse na casa e brincava de morder, o maldito. Apesar de seu tamanho médio, era muito jovem, cria do mais velho. O pobre mal tinha nome; cada um na casa dera um apelido. A pequena o amava e ele lhe retribuia o sentimento; afinal, cachorros também amam.
Mas a mãe já não tinha mais saúde nem dinheiro. E é essa hora que as pessoas fazem opções dolorosas em suas vidas. Reclamava que não podia pagar a comida e o material de limpeza ao mesmo tempo. Ah, e ninguém lhe ajudava. Os cachorros também fazem digestão quando chove! E depois de recolher as cacas de três dias seguidos, foi ter com a pequena que, agora esbaforida e desbocada, gritava aos prantos e aos vizinhos que tudo que mais amava lhe havia sido tirado.
"Se você cuidar, eles ficam".
E todo amor foi-se para o ralo com o cloro escorrido pelo quintal que, nesses tempos, a mãe lava apenas uma vez por semana.
Depois dessa enfática afirmação, resolvi calar-me e escutar a interessante discussão que prosseguia. E, de fato, não me restava falar mais nada. Já não morava na casa há dois anos e não podia dar qualquer opinião contrária a da pequena; bastava para ouvir deliciosas frases como a supracitada. Mas entendo a sua chateação.
A mãe não aguentava mais os cachorros e suas cacas no quintal; ela limpava, alimentava-os, comprava os produtos necessários para manter a ordem na casa. E urrava de dor cada vez que voltava para dentro, depois de lavar o extenso quintal, pois a coluna reclamava.
A pequena era apaixonada pelos bichos. Tirava dezenas de fotos diariamente, brincava com eles. Naqueles seus quase 15 anos não tinha muitos grandes amigos, salvo pelos dois saltitantes cachorros e uma menina, de quem não lembro ao certo o nome.
Um deles já era velho. Seus primeiros passos foram dados para acompanhar a pequena, que dava as suas primeiras pedaladas; eram felizes juntos, desde então. Ele só obedecia à ela. Era um fujão. Há alguns anos, comeu o portão de madeira que lhe fechava a casa, para dar suas voltinhas pela rua e atazanar a vizinhança. Mas bastava a menina aparecer, com certa rigidez no rosto, para que voltasse, sem dono, rabo entre as pernas. O problema era que ele nunca passeava com ela.
O outro era mais novo. Espuleta e enlouquecido, o outro. Saltava em pessoa qualquer que chegasse na casa e brincava de morder, o maldito. Apesar de seu tamanho médio, era muito jovem, cria do mais velho. O pobre mal tinha nome; cada um na casa dera um apelido. A pequena o amava e ele lhe retribuia o sentimento; afinal, cachorros também amam.
Mas a mãe já não tinha mais saúde nem dinheiro. E é essa hora que as pessoas fazem opções dolorosas em suas vidas. Reclamava que não podia pagar a comida e o material de limpeza ao mesmo tempo. Ah, e ninguém lhe ajudava. Os cachorros também fazem digestão quando chove! E depois de recolher as cacas de três dias seguidos, foi ter com a pequena que, agora esbaforida e desbocada, gritava aos prantos e aos vizinhos que tudo que mais amava lhe havia sido tirado.
"Se você cuidar, eles ficam".
E todo amor foi-se para o ralo com o cloro escorrido pelo quintal que, nesses tempos, a mãe lava apenas uma vez por semana.
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