Textos que quis trazer do outro blog
Escrever pode
ajudar – 20/11/11
É muito triste
pensar em quantas pessoas queridas a gente perde ao longo da vida por pura
estupidez. Pela nossa, alheia ou ainda pela união das duas.
É difícil conter as
lágrimas por enquanto. Eu só percebo quando uma ferida fecha quando a memória
toca e não arde mais. No momento parece que a ferida é a mesma de antes, como
aquela que eu tenho no pé quando volto a dançar. A pelezinha que sai do peito
do meu pé direito toda vez que ajoelho depois de um salto. No entanto, eu
sempre volto. Com band-aid, esparadrapo, micropore, eu sempre volto a dançar e
fazer essa movimentação faz parte.
A pelezinha do
coração que sai já saiu antes pelo mesmo motivo. E por mais que arda muito
agora, eu não posso e muito menos quero parar de viver. E o mais importante é
querer, assim como eu não quero devolver nada agora. Teve uma hora que ir
embora de São Carlos parou de doer. E a memória passeia bastante pelo coração
desta desterrada sem machucar. Mas foi necessária uma adaptação ao novo
ambiente. Não que eu me sinta completa ou completamente feliz, pois a cada dia
penso em me colocar numa posição diferente até achar o meu lugar.
E assim será, dessa
vez e da próxima. Porque é isso que parece me incomodar mais, meu coração,
assim como o peito do meu pé, cicatriza, mas sempre terá esse lugar onde a pele
é mais frágil.
Inquietações
– 10/10/11
Cada vez que penso numa zona de
conforto, me aflijo. Até concordo com essa coisa Piagetiana do conflito, da
assimilação e da acomodação. Parece-me que é isso mesmo que move a gente, o
incômodo, e é certo que outros (Freud, Vygotsky, Klein) já falaram sobre
esse assunto. O que me "incomoda" é como lidamos com essa situação na
atualidade, tendo em vista que o mundo (a sociedade, as pessoas, everybody),
nos bombardeia com a idéia de cura rápida. Uma coisa meiofast-food mesmo.
Não parece ser permitido o tempo do sofrimento, da elaboração para a acomodação
de novos esquemas. Se dói a gente toma um remedinho. E toma um remedinho porque
não pode parar. Como assim, não pode parar? Como se não fossemos sujeitos de
nossa própria vida. Talvez, provavelmente, essa desapropriação de si seja
resultado de um processo sócio-histórico-econômico. Onde o trabalho toma parte
primordial da existência [adendo da transcritora: o produzir parece ter esse
papel, mais que o trabalho]. E com 80% da palavra trabalho quero dizer
chefe. Em última instância, o chefe é o dinheiro. Ficar doente causa
improdutividade do indivíduo e consequente improdutividade da organização. E se
a doença física é questionada e deve ser provada, as doenças da ordem da psique são
ignoradas, até mesmo quando se tornam físicas. Não há tempo para resolver o
incômodo nem para assimilar, tampouco para colocar as coisas no
lugar. Não há tempo para respirar antes da nova descarga do corpo.
Acho que a busca pela felicidade hoje
é a busca por um "colocar as coisas no lugar" [e aquietar o
"espírito"]. Ao mesmo tempo, me parece que a natureza humana
busca o ciclo, o aprender continuamente, o frustrar e o recolocar. Procurar a
felicidade na estabilidade (e nos livros de auto-ajuda) me parece bastante
fugaz. É como descer uma montanha com uma corda de meio metro acreditando que
ela vai aumentar por algum milagre. Talvez seja a hora de carar quando a corda
acaba, aceitar que acabou, recolhê-la e pensar em como continuar descendo; [o instrumento
está dado, a gente só tem que usar...]
tem ou sem Graça? – 28/09/11
Tudo parecia em preto e branco. Logo
hoje que vestira blusa verde, echarpe azul, óculos roxo. O tempo, o calor do
dia, parecia vencer-lhe pelo cansaço e tudo o que ela fazia era esperar. A
Graça via a noite passar sentada na janela do quarto enquanto ouvia sua música
favorita - o vaivém dos carros lá embaixo.
A Graça queria ir embora.
Mas por alguma razão deixava-se estar
no marasmo da rotina estafante. Marasmo... água. Tinha tantas vontades, mas a
visita a cachoeira era distante da sua realidade. Até perceber que a melhor
coisa a fazer era simplesmente fazer.
E a Graça se perdeu no mundo.
À sombra do pensamento – 04/09/11
Por alguns minutos resolvi pensar o
que significaria "a so(m)bra do pensamento". No dia em que resolvi
colocar esse subtítulo, por assim dizer, no blog, eu tinha pensado nos sentidos
de sombra e de sobra.
Sobra, seria simplesmente o que resta
do pensamento para ser escrito, aquilo que seria normalmente descartado. Então
o blog seria o lugar do fim das minhas idéias, da borra que ficou no fundo da
xícara. O blog seria o lugar do meu lixo externo, do lixo que consumo em minha
cabeça, nas entranhas, no coração.
Sombra, pensei ainda na mesma linha.
Seria o que não é o principal, o que fica pra trás quando o sol ou a luz batem.
É o que nos segue e a gente não presta atenção; a não ser que não esteja ali. O
blog era o lugar de olhar para a minha sombra como o prato primeiro a ser
ressignificado. Não, a minha sombra não. A Sombra do meu pensamento.
E o pensamento me traz uma sensação
de efemeridade. Isso porque a gente pensa uma porção de coisas que se vão com o
tempo, dure este 5 segundos ou 10 anos. Mas o pensamento que a gente escreve e
guarda, fica. Porque a memória é curta pra armazenar tanta frase, tanta idéia,
tanta sabedoria que a gente acumula ao longo dos anos. E pra isso existem os
livros. E pra mim, os blogs.
Mas hoje eu estava pensando
diferente. Eu olhei para esta frase e achei que ficaria melhor sem o parênteses
e com uma crase. À sombra do pensamento. Hoje eu achei que o melhor local para
estar era embaixo do meu pensamento, como a gente se abriga do sol embaixo de
uma árvore. E eu fiquei olhando a vida dalí, com a brisa fresca da tarde
batendo em meus cabelos e levando-os para longe longe...
Talvez ficar à sombra do pensamento
funcione como meu lugar de acalento, como se eu trocasse a gaveta da minha
cômoda, onde eu estava apertada e olhando pelas frestas, por essa grande árvore
que se chama "minha cabeça". Porque é uma árvore frutífera, que tem
folhas suficientes para me abrigar da luz, do calor. Onde eu posso sentar e
olhar sem medo.
Sobre o que toca enquanto tento me
esquecer – 28/08/11
A música preenchia meu espírito e
arrancava minhas lágrimas violentamente, como se representasse algo que eu
poderia ter vivido e não vivi. Sua grandeza melodiosa me enlevava e incomodava,
sentimento ambíguo muito comum na situação que eu vivia. Quando a gente perde
não sabe se está vazio do outro ou cheio de tristezas próprias. Prefiro o que
seja meu. E se o fim é triste, que seja intenso como foi o início.
Sigo ouvindo meu adágio cheio de
chorosos violinos esperando os pratos e tambores vívidos da coda.
Ao ouvir o Adágio da Rosa, from
Sleeping Beauty
Resiliência – 22/10/09
Estava de costas para ele, à janela.
Observava de longe a luz acesa esquecida em sua casa, distante algumas quadras.
Ele, ainda na cama, chamava-a de volta, como um diabético, que não pode ter seu
doce. Mas já a saboreara outras vezes; não entendia essa sua resistência, não
parecia estar cansada e isso seu vigor em lhe dar prazer revelara. Ela estava
distante, pediu para acender um cigarro e ele não deixou.
Fechou os olhos
então. Estava nua à janela, cabelos ao vento suave, aquele era o inicio de
primavera mais interessante de sua vida, tinha certeza. Por cima de seu ombro
direito podia ver seus olhos verdes iluminados pela luz de fora. Estava
cansado, seu corpo repousava sobre a cama, numa tranqüilidade muito sua.
Piscava lentamente para ela, com o sorriso carnudo de sua boca muito vermelha.
Ela suspirou e pediu um cigarro. Estendeu-lhe a mão, ela acendeu. Daquele vulto
curvilíneo ele podia ver a fumaça serpentear para fora do quarto. Ela se
preocupou com o cheiro e pediu que lhe abrisse a bolsa e achasse um creme de
mãos qualquer esquecido há dias. As mãos cheias de rosa tocaram-lhe as pernas e
as coxas e subiram até o rosto. Fitaram-se. Nada mais importava, estavam ali, a
sós, íntimos. Naquele quarto onde tantas vezes se desencontraram.
Abriu os olhos.
“Preciso ir”, disse secamente e ele continuou sem entender. Ela vestiu sua
blusa, ele a calça. O caminho até a porta de entrada parecia longo, inóspito e,
no fim, era apenas silêncio, limite dos segredos de cada um. Foi que o verde
dos seus olhos lhe apareceu como um raio fulminante, na altura da cozinha, como
se representasse uma mudança de planos. Ela titubeou, claramente, e os dois
compreenderam a mentira de quando ele a perguntara sobre o seu apreço. Acenou
com a cabeça. O outro se tornara mero coadjuvante em sua história. Cada vez que
fechasse os olhos enxergaria os seus, de ninguém mais. Essa era a sua sina.
Essa
é a história de Carla... – 13/05/09
... é verdadeira. Aconteceu com uma amiga de
uma amiga minha.
Carla era uma
menina feia e ele não ligava. Não que a amasse de verdade... Era o máximo que
conseguira arrumar, após anos procurando pela mulher perfeita. Pensava que
estes anos não valeram de nada; algumas imperfeitas se perderam pelo caminho -
eram mais bonitas ou inteligentes que Carla.
Queria uma mulher
para os outros. Alguém que os colegas invejassem, desejassem, adorassem - e que
fosse apenas dele. Passara muito tempo sendo chamado de incoveniente, chato,
insuportável e outros adjetivos menos apropriados para ficar com qualquer uma.
Queria uma mulher para recordar.
Certa vez encontrou
moça interessante, inteligente, brilhante. Era uma excelente parceira para
todas as horas, tornou-se sua melhor amiga; paciente, ouvia-lha com uma atenção
que ninguém lhe dispunha... Apaixonou-se por ela, e ela não por ele. A coisa
toda é que ele era um cara bacana, mas não era seu irmão.
Fez de um tudo.
Enlouqueceu, descabelou-se, futricou, contou mentiras. Nada adiantou. Ela era
do irmão e os dois combinavam como bom queijo com bom vinho, numa mistura
refinada de dar dó. Emburreceu-se e voltou à sua procura, enquanto o irmão
levava, mais uma vez, os louros e a loira da vitória. Ela era apenas uma mulher
para recordar.
E assim, fez
história com a pobre Carla.
Ela acreditava que
seu principe viria em um cavalo branco salvar-lhe dos homens terríveis que lhe
apareceram na vida. Eram todos uns cachorros. E lindos. Já não procurava mais
beleza nas flores, só queria alguém sem espinhos e isso tudo era compreensível;
vivera com seu pai apenas, um homem indelicado e de hábitos grotescos.
A coisa toda é que
Carla é tão sem graça que não quero discorrer sobre ela. Mas a mulher encontrou
no homem a delicadeza de dama que esperava.
E nessa imperfeição
e incorreção fizeram-se amantes. Completaram-se, e por menos que pareça um
conto de fadas, vivem felizes até hoje. Ora, isso é verdade, aconteceu com uma amiga de uma amiga minha.
Bolsa amarela – 18/11/08
Sabe, às vezes tudo o que eu queria era um
bolsa amarela, pra levar meu quintal a tiracolo.
"Você
não mora mais aqui, cale a boca".
Depois dessa enfática afirmação, resolvi calar-me e escutar a interessante
discussão que prosseguia. E, de fato, não me restava falar mais nada. Já não
morava na casa há dois anos e não podia dar qualquer opinião contrária a da
pequena; bastava para ouvir deliciosas frases como a supracitada. Mas entendo a
sua chateação.
A mãe não aguentava mais os cachorros e suas cacas no quintal; ela limpava,
alimentava-os, comprava os produtos necessários para manter a ordem na casa. E
urrava de dor cada vez que voltava para dentro, depois de lavar o extenso
quintal, pois a coluna reclamava.
A pequena era apaixonada pelos bichos. Tirava dezenas de fotos diariamente,
brincava com eles. Naqueles seus quase 15 anos não tinha muitos grandes amigos,
salvo pelos dois saltitantes cachorros e uma menina, de quem não lembro ao
certo o nome.
Um deles já era velho. Seus primeiros passos foram dados para acompanhar a
pequena, que dava as suas primeiras pedaladas; eram felizes juntos, desde
então. Ele só obedecia à ela. Era um fujão. Há alguns anos, comeu o portão de
madeira que lhe fechava a casa, para dar suas voltinhas pela rua e atazanar a
vizinhança. Mas bastava a menina aparecer, com certa rigidez no rosto, para que
voltasse, sem dono, rabo entre as pernas. O problema era que ele nunca passeava
com ela.
O outro era mais novo. Espuleta e enlouquecido, o outro. Saltava em pessoa
qualquer que chegasse na casa e brincava de morder, o maldito. Apesar de seu
tamanho médio, era muito jovem, cria do mais velho. O pobre mal tinha nome;
cada um na casa dera um apelido. A pequena o amava e ele lhe retribuia o
sentimento; afinal, cachorros também amam.
Mas a mãe já não tinha mais saúde nem dinheiro. E é essa hora que as pessoas
fazem opções dolorosas em suas vidas. Reclamava que não podia pagar a comida e
o material de limpeza ao mesmo tempo. Ah, e ninguém lhe ajudava. Os cachorros
também fazem digestão quando chove! E depois de recolher as cacas de três dias
seguidos, foi ter com a pequena que, agora esbaforida e desbocada, gritava aos prantos
e aos vizinhos que tudo que mais amava lhe havia sido tirado.
"Se você cuidar, eles ficam".
E todo amor foi-se para o ralo com o cloro escorrido pelo quintal que, nesses
tempos, a mãe lava apenas uma vez por semana.