quinta-feira, 19 de setembro de 2013

olho

vem de mansinho
fingindo a maciez do algodão
tão branda e suave
refrescante cinzento após de dias sol

escurecer do raiar matinal
melancolia em preto e branco
inquietando o renascimento
ao mudar de lado o farol

chega raio e vem trovão
como pausa contínua do que era esperado
castiga de negrume o coração

esse centro onde estava
um momento de estaca
e nada respinga paixão

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

turbilhão

entrou na água tomando um golpe do mar
a correnteza levou
aquilo que me havia de mais precioso
a calmaria, acabou

entre as lascas mortas de concha
embrenhando nos cabelos molhados
tanto pensamento absorto
tanto sofrimento guardado

a maré virou, fez-se cheia
atrita contra a pele
a aspereza dos grãos de areia
não tem chão,
turbilhão,
a perder o sentido
não dá pé nem pulso nem anca
é a água enchendo pulmão
desespero da indefinição


domingo, 8 de setembro de 2013

alforria

é palavra, som, sentido
tocando meu eu sustenido
insiste me fazer escrever
dançar pelo rir e sofrer

artista, em tanto que sobra
da crise à última obra,
o que sou entreato e agora

e dói sentir muito assim
fogo longínquo ardendo em mim
imprimo a mordida no peito
mantenho o quedar do fardo rarefeito

forma de vida sem fôrma
ou lugar onde aperte e transborde
meu corpo esclarece a desforra

que o sapato do calo é a arte
a mesma que a alma retoma
afirmação do que falo e reflito
infinitude instável a qual acredito



Do momento: a gente só publica pra fingir pra gente que não se importa o quão ruim ta o treco.

Pôr do sol

Você viu?
A lua sorridente à espreitar seu sono
Claridade obscura pela janela
Delineando contornos e traços
Lhe tratando cada vez mais bela?

Você viu, ou mais uma vez se negou a enxergar
toda a pureza sentimental da estética
cada palavra jogada em balaio de estopa
clamando atenção para a falta métrica?

Você viu?

fechou os olhos para não revelar
o que lhe parece impossível explicar
movimento profano de procurar e esconder
à revelia daquilo que deixara morrer

viu ou deixou-se cegar?

seja pulsar seu fechar e abrir
destes olhos de amêndoa doce como
nada mais importasse para si
em busca do viver mais que olhando

olhe pra mim
esteja presente, enfim
completude coberta
porta entreaberta
fresta alcançada por fim



segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Shhhh

Silence, quiet little lamb!
A fragilidade da tua voz não interessa
Esconda o brilhante atrás do belo
Deixe admirar a estátua, imóvel de pedra.
Silence, little lamb...

Primeiro

Teu quarto na vahia cheio de nós
Desculpa qualquer que nos abrigasse
Tensa paixão, momento de impasse
Chamando amizade de algo maior

Naquele apartamento vazio,
Toda a expectativa me enchia
Cortina fechada para a vida lá fora
Voltas pra casa, idas para a escola

Eu não era quem eu dizia
Segredando impulsos, desejos
Bem a verdade, você já sabia
Intérprete perfeito de minha poesia

Mas à distância de duas bicicletas,
Silenciei sobre a tua beleza quando de jeans e de preto
E sobre a mão repousando em minha perna
Revelei a angústia de te ter por tão perto

Tanto calor resguardava teu corpo, abraço sem fim...
Era a menina eu deixando partir
Punha em teus lábios tamanha inocência
Sem saber da tristeza que estava por vir

Primeiro amor rechaçado
Primeiro beijo guardado
Memória pra sempre de ti






[Que difícil de sair, nenhum verso jamais estará perto]

domingo, 1 de setembro de 2013

Dia do Bailarino

Hoje é dia de um profissional que todo mundo acha bonitinho. Mas que é muito, muito pouco valorizado. É dia de um artista que sofre e demonstra em seu corpo a paixão por seu trabalho que, muitas vezes é tratado como brincadeira de criança. E o brincar do adulto, na nossa sociedade, infelizmente, é também tratado como algo que diminui... 

Enfim, hoje é dia do bailarino. Me sinto muito feliz em poder dizer que faço parte dessa categoria, que toca as pessoas pelos palcos que passa. Hoje eu digo com muito orgulho: sou bailarina, sou artista da dança. E parabenizo todos aqueles que seguem na luta; especialmente os que não conseguem lugar nas poucas companhias profissionais do nosso país. Porque não é o local onde estamos que define o ser bailarino: é o suor, o trabalho e o coração...