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quinta-feira, 16 de novembro de 2017

de repente 30

Sempre que revisito meus textos me surpreendo com certa inocência, me deparo com alguma esperança lânguida. Reler parte do material aqui me ajuda a lembrar os caminhos percorridos e perceber o estado em que me encontro.

Eu usava palavras mais bonitas e escrevia com mais intensidade, talvez. Deixei os anos mediarem meu crescimento e o cuidado com o meu bem estar. Ainda choro, sofro, sinto e, definitivamente, passei a brigar mais do que eu brigava, mas acalmo mais fácil. Amores, todos os amores da vida, vieram e se foram, eventualmente voltaram e foram de novo, é um fluxo. Como eu escrevia sobre meus amores, encontros de alma, pessoas inspiradoras; cada amor novo seria o último. Ingenuamente doce.

No momento, não sei se amo e essa instabilidade me instiga a perceber o outro de outro modo. Somos frágeis, sensíveis e instáveis. Não sei se amo aquele que lembrou a minha distância da torre da princesa à espera de um salvador, essa bobagem que aprendemos nos livros da infância. Não sei se amo aquele de quem sinto falta, saudade, por quem choro rápido, me recomponho e retorno à vida. Não sei se amo aquele que eu já disse tantas vezes amar. Não sei se amo, se minto, se corro ou se imagino nossa vida juntos, acho que tudo isso. Não sei se quero uma vida juntos. Não sei se preciso saber agora. Sinto um apertinho no peito em saber de seu voo de volta. Uma dose de felicidade e questões, muitas questões, mais do que a certeza adolescente deste blog. E outra dose de felicidade em poder tocar. Tocar, coisa tão simples.

O fato é que, entra ano, sai ano, eu continuo falando de amor.


sábado, 10 de janeiro de 2015

Por que não vai? (ou Pormenores)

Tenho de ti uma névoa madrugada
Mãos pelos cabelos lisos e grossos
Estado de estar escondido no meio da multidão
Pouco e muito tenho de ti

Guardo-te ainda em nenhuma caixa
Penso que não caberias
Nem dentro daquele apartamento pouco mobiliado
Onde tanto intenso se circunscreveu

Por aquilo que acho pradaria onde passo
Lembro teus olhos refletidos atrás dos meus
Estavas invertido
Eu pensando ser meu erro o que era crasso

Não te culpes, bem amado,
A distância semi-imposta estava à revelia dos fatos
Quis entrar nos teus espaços
Assim como depois entraria no meus

Ainda és bruma, não te conheço nem o mínimo
possível para amá-lo como se fosses
aquele que povoa minha mente
Num noitedianoite incansável

Me afasto, porque é o óbvio a fazer
Mas vens inacessível, uma frase
Um colapso
Tudo se esparrama ao menor contato

Ainda assim...
Num tudonada diferente em mim...
Nenhum outro imã me veste como o teu

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

chuva

A chuva caia repleta de gotas circunscrevendo a madrugada enquanto eu andava com as chinelas lisas pelo tempo de uso, me escorregando nas pinturas do chão. Mas é que daí eu pisquei. Na minha memória, ele passaria a mão na nuca para sempre, imberbe, boca entreaberta de concentração na matemática. "Irremediavelmente apaixonados pelo resto da vida(*)", mas o resto da vida era muito tempo. Seus pequenos olhos sob as sobrancelhas arqueadas, problema insolúvel sobre a folha de papel e aquele momento congelou, me aquecendo. Concentrado, ele era sempre nu, deixava-se ver por inteiro e minha felicidade sabia que sua entrega não era por minha causa. Pisquei e perdi o ponto, corri pelas vias molhadas e segundos depois não tinha controle. É que, estatelada, do chão, já não dava pra voltar atrás. Fico em dúvida se em alguma ocasião haveria tal possibilidade...
(*) Virginia Woolf, As ondas. Na edição da Novo Século,  página 40.

sábado, 4 de outubro de 2014

Repetição sustenida

Há uma fresta por onde passam os sonhos
Iluminada pela interpretação
Teatro de alguém que não se conhece
Um lugar distante onde não existo
Refúgio onde os pensamentos não alcançam

Frágil memória não me deixa envolver
O irreal é uma ilha cercada de verdades
Que guarda a beleza do que se esvai
Num piscar remoto de olhos

A busca do drama na tela
Apenas escape das paixões e ânimos reais
O que faz de mim alguém que espera
Coisa qualquer, música a apaziguar

O que há além da janela?
Céu de vanilla, vívido azul mortal
Entre nós, a trama da rede que me prende e cega
O estado torpe do meu corpo sentado ao chão da sala
Repleta de tudo o que não tem lugar

Eu não tenho também
Mais um móvel estático coberto de trapo
se pendurando na fragilidade dos sonhos
de um eu desconhecido
à espera de seu destino final

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Primeiro

Teu quarto na vahia cheio de nós
Desculpa qualquer que nos abrigasse
Tensa paixão, momento de impasse
Chamando amizade de algo maior

Naquele apartamento vazio,
Toda a expectativa me enchia
Cortina fechada para a vida lá fora
Voltas pra casa, idas para a escola

Eu não era quem eu dizia
Segredando impulsos, desejos
Bem a verdade, você já sabia
Intérprete perfeito de minha poesia

Mas à distância de duas bicicletas,
Silenciei sobre a tua beleza quando de jeans e de preto
E sobre a mão repousando em minha perna
Revelei a angústia de te ter por tão perto

Tanto calor resguardava teu corpo, abraço sem fim...
Era a menina eu deixando partir
Punha em teus lábios tamanha inocência
Sem saber da tristeza que estava por vir

Primeiro amor rechaçado
Primeiro beijo guardado
Memória pra sempre de ti






[Que difícil de sair, nenhum verso jamais estará perto]

domingo, 25 de agosto de 2013

Memória bruta, passada

Por ela você percorreu as mais belas distâncias
Sob a luz da via láctea, estrada iluminada
Pelas estrelas que contávamos a beira d'água

Porque tamanha beleza a ela destinada?
Não pude compreender porque me rechaçara antes de mais nada
Tantos quilômetros percorridos pra me ouvir dizer
Que de você tudo sobrara
Quando teu amor era o sofrimento que significava?

Percorrera a estrada que eu mais amava
Pra encontrá-la passou sobre o monte que me aproximava do infinito do universo
Antes da Riviera e do amanhecer daquele primeiro dia de ano novo
Quando todo sentimento era tão velho, tão usado...
Eu te deixava e você me usava

Caiu sob as pedras, parou o carro
Ouviu meu nunca mais e não voltou
Caiu no meu conceito
Sob a lua, teus defeitos
Caiu e não vi mais nada.
Caio com os pés gelados na minha estrada.

Sobre um passado litôraneo

Podiam ser quaisquer novos amantes em teus bancos
Mas éramos nós das duas às cinco da madrugada
como se nos intimidássemos pelas câmeras da orla
como se sobrasse coragem ao embrenharmos pelos veios das árvores

Eram palmeiras imperiais aquelas da beira da praia
Podiam ser chapéus de sol sob a noite nublada
E as barracas onde escondíamos nosso amor interminável
Apenas cúmplices dos beijos e dos sonhos trocados

Nunca fora aquela areia, entretanto,
Espectadora de outro casal tão apaixonado
Podiam ser quaisquer novos amantes
Mas nenhum como eu e meu [já esquecido amado]



[inspiração inicial pela foto do face de Santos. Depois pelas memórias remexidas no aquário]

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Enfim, o que é daquilo que poderia ter sido

Se me esqueço da complexidade de escrever
rapidamente me volta a memória você
tradução insuficiente de sutileza sobre si,
não há nada que te descreva

Mais que tempo,
Música ou lembrança
Mantenho sua existência guardada
Quando momentos transformaram-se em anos

E até hoje,
Pessoa alguma no mundo
Me inspira e me toca em profundo
com a clareza do teu olhar
mesmo que seja distante
na memória,
na palavra,
no minuto em que não fomos amantes

Seria um presente
se minhas palavras, coisas faladas
aproximassem a deliciosa sensação
de te ter como inspiração

sábado, 8 de junho de 2013

Re-verso

Quem dera resgatar os minutos
Os segundos seguidos dos risos e dos beijos
Saudade que vem sem endereço
Do que me fugiu no coar dos momentos

Passa o tempo,
conta a história
No vazio do vento
larguei a memória






Ando cheia dos versinhos.