quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Amor passado


A dor que por ora aperta
Sara e muda de lugar
Coração procura à hora certa
Mas desgraça escorrega e foge
Deixa a porta entreaberta pra depois repassar

Mazela é quebrar um termômetro velho
Mercúrio espalhado, condensado
Pá nem canudo recolhem
Parcela
Fraciona
Deixa invisível
Mas o corpo sabe que ainda está lá.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Trilha

Há poesia nos medos mais profundos
Há poesia no medo da dor, no medo da perda

Mas a vida não é feita de rima
É feita de liberdade
Quero alegria, letra solta no mundo
Encontrar esse medo mais profundo
Transformar em medo venoso
Expira, lança do corpo

No caminho, felicidade é barranco depois da enxurrada
Só enxerga quem pouco se apega





sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Sopro do barco

Amei-te com a voracidade da entrega
Contra a leveza dos fatos
Amei-te completa
Com o ímpeto dos desejos mais secretos

Amei-te entre tantos passados
Amei-te no sonho, na queda
Desde o canto ao que fora tocado
Por cada céu de minha atmosfera

Amei-te distante e desnuda
Ante a mera perspectiva de ser tua
Amei-te por fora e por dentro
Em cada instante, a cada tempo

Amei-te braços, cabelos, costas e unhas
Amei-te mais do que eu mesma supunha
Com pernas bambas, colos e arestas
Entre as grandes e pequenas frestas

Amei tanto amor
Que quando passou
Deixou um buraco e tirou-me da inércia

domingo, 30 de dezembro de 2012

Caminhante

Bate sol no movimento
Caminhante contra o vento
Corpo versus alma crua
Silhueta desenhando a rua

Caminhante solitário
Passageiro mercenário
Habitante da memória
Caminhante

Se afasta pela borda fria
Segue a sombra pela via
Se sorri ou se chora já não vejo
Segue a dúvida despedida pelo beijo

Sussurrar em teu ouvido era arrepio
Longe, grito teu nome no vazio
Caminhante distante
Cala a lágrima, deixa o coração estanque

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Pós-pós


Clique é (des)toque
Brilho no rosto escuro da vida
Não destoca: retoca
a imagem, o espelho sem volta.

Descontrole pelo medo de estar controlado
clicado
marcado
curtido em massa, tempero para não apodrecer.

Sem luz, o único corpo é o da vela.
Deixa o fogo consumir o comprado
Vontade de estar ao lado
Mantendo a distância da tela.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Um pedacinho do livro


"Sentia-se condenado a sentir o que lhe era profundo, a profanar o amor, deixar-se arder em toda a crueldade. Sua vida era uma grande tragédia e mesmo quando decidira acabar de vez com esse conto de mau gosto, fora mal sucedido. Pensava ser pela sua falta de competência em ir até o fim de ato qualquer, mas se enganava – coisa habitual de Bruno – porque não queria morrer; se sentia culpado por todas as maleficências que alcançaram sua família e todos que amava. Ficar sozinho parecia ser a melhor punição para todos os seus pecados: traições, mentiras, angústias que causara nas mulheres ao seu redor.

E tudo parecia girar em torno de seu coração marcado a ferrete."

Quem sabe é um bom começo...

sábado, 27 de outubro de 2012

Nu em outro

Em certo ponto, resolveu não se envolver em relacionamentos com amor. Sim. Dividir a vida em pré e pós romantismo de livro, esquecer dos contos de fadas com finais felizes. Até porque, se fada madrinha existisse, seria essa a sua função no mundo e nunca lera uma só história em que a fada tivesse outro fado que não fazer princesas felizes.

Fardada com ou sem varinha, foi com seu novo intento, boca, nuca, mão, e o coração não. Mas descobrir se é verdade que sexo com amor é melhor que sem medo não é tarefa fácil para uma moça criada segundo a tradição judaico-cristã; valorize o seu corpo, não o entregue para qualquer um.

Como se viesse embrulhada num papel presente gigante! Como se descobrir os prazeres de estar com alguém por estar com alguém fosse coisa terrível e impensável para uma mulher direita, para uma mulher que se ama acima de tudo. E era quieta, do tipo fofa, que agrada a todos. Pobre, ninguém é tão camaleão a ponto de satisfazer o mundo.

Sérias bobagens deixadas para lá, aventurou-se com o primeiro one night stand. Depois de casada por quatro anos, deitar com outro fora exótico. Ele não sabia o que ela gostava, o que ela queria, e a criatura se viu na estranha posição de ser ativa em seu sexo. Tinha que falar, tinha que pedir, seu desejo exposto de maneira tão visceral e necessária para o prazer. Era difícil, porém estava decidida a tentar quantas vezes fossem necessárias. One se tornou two e three e four...

Rapidamente sentiu se tornar uma maravilhosa amante. Conhecia truques, descobria e lembrava de uma noite para outra como enlouquecer o parceiro, se orgulhava. Gozava e adorava olhar os olhos daquele que morria de prazer em suas mãos, boca, corpo inteiro feito um furacão... Mas sobrava-lhe um vazio triste após os toques profundos e íntimos, carícias talhadas em suor e suspiros. Culpou o amor. Só podia ser sua falta a razão de tamanha infelicidade. Não era mesmo igualmente bom.

Caso de verão ou princesa do era uma vez, aprendera toda a vida a servir, perseguir a felicidade alheia. Culpava a falta e o excesso de amor pela sua incapacidade de se mostrar mulher desejante mais do que desejada, culpava o mundo pela anulação do seu existir.

Abandonou os relacionamentos casuais. Abandonou o amor. E manteve-se no posto fixo de ser mártir procurando pelo no ovo do prazer alheio até a desrealização de sua escolha levar a cabo a pouca vontade que tinha de simplesmente ser.