quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Férias

O sal da água poderia disfarçar as lágrimas, mas nem toda a imensidão do mar é suficiente para levar embora aquilo que foi necessário viver... E é com essa consciência que deixo o peso da vida no oceano, guardando toda a sublime sensação da maré cheia a me navegar...


terça-feira, 8 de outubro de 2013

Repente de poesia fria

Sob os ventos, os cabelos novamente voam
À espreita da chuva a voltar
O gelado no rosto e nas mãos
É a poética trazida ao altar

Revoltas as folhas que caem
Neste frio acabar de setembro
Primavera esperada não chega
Outono que findo recolhe o intento

Tantas flores perdidas
Salpicam o chão, sinos de vento
Tanta santa estrela esquecida
Sobre o peso das nuvens do tempo

Visita da dor e da morte
Neblina levando a boiada
Cada sopro arrastando era forte
Passos gélidos, escorregadia estrada 

Foi-se vida pairando o norte
A felicidade na madrugada parada



*pequena nota: veio rompante de choro na rua escura e vazia. Vento que faz a gente sentar e pensar sobre a vida e sua finitude, sobre o amor que se vai mas é eterno, sobre a saudade que fica quando o destino final é mais forte que o querer estar sempre por perto. Para meu avô.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

olho

vem de mansinho
fingindo a maciez do algodão
tão branda e suave
refrescante cinzento após de dias sol

escurecer do raiar matinal
melancolia em preto e branco
inquietando o renascimento
ao mudar de lado o farol

chega raio e vem trovão
como pausa contínua do que era esperado
castiga de negrume o coração

esse centro onde estava
um momento de estaca
e nada respinga paixão

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

turbilhão

entrou na água tomando um golpe do mar
a correnteza levou
aquilo que me havia de mais precioso
a calmaria, acabou

entre as lascas mortas de concha
embrenhando nos cabelos molhados
tanto pensamento absorto
tanto sofrimento guardado

a maré virou, fez-se cheia
atrita contra a pele
a aspereza dos grãos de areia
não tem chão,
turbilhão,
a perder o sentido
não dá pé nem pulso nem anca
é a água enchendo pulmão
desespero da indefinição


domingo, 8 de setembro de 2013

alforria

é palavra, som, sentido
tocando meu eu sustenido
insiste me fazer escrever
dançar pelo rir e sofrer

artista, em tanto que sobra
da crise à última obra,
o que sou entreato e agora

e dói sentir muito assim
fogo longínquo ardendo em mim
imprimo a mordida no peito
mantenho o quedar do fardo rarefeito

forma de vida sem fôrma
ou lugar onde aperte e transborde
meu corpo esclarece a desforra

que o sapato do calo é a arte
a mesma que a alma retoma
afirmação do que falo e reflito
infinitude instável a qual acredito



Do momento: a gente só publica pra fingir pra gente que não se importa o quão ruim ta o treco.

Pôr do sol

Você viu?
A lua sorridente à espreitar seu sono
Claridade obscura pela janela
Delineando contornos e traços
Lhe tratando cada vez mais bela?

Você viu, ou mais uma vez se negou a enxergar
toda a pureza sentimental da estética
cada palavra jogada em balaio de estopa
clamando atenção para a falta métrica?

Você viu?

fechou os olhos para não revelar
o que lhe parece impossível explicar
movimento profano de procurar e esconder
à revelia daquilo que deixara morrer

viu ou deixou-se cegar?

seja pulsar seu fechar e abrir
destes olhos de amêndoa doce como
nada mais importasse para si
em busca do viver mais que olhando

olhe pra mim
esteja presente, enfim
completude coberta
porta entreaberta
fresta alcançada por fim



segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Shhhh

Silence, quiet little lamb!
A fragilidade da tua voz não interessa
Esconda o brilhante atrás do belo
Deixe admirar a estátua, imóvel de pedra.
Silence, little lamb...