arte, cultura, baboseiras, relíquias por aí. saber o que é não importa, só é preciso mexer.
sexta-feira, 23 de março de 2012
frívolo
é que em nosso contrato só existe espaço pra falar de alegria
e se fosse recado o que era dado não trazia tristeza e melancolia
mas se a gente não fala o tempo não acalma
só derruba a entrelinha
é que o amargo faz salivar pelo doce
e a gente entende como se fosse gosto o bastante
mas o esquecer da lembrança não tarda
só mistura e finge que sara
terça-feira, 20 de março de 2012
versinhos
Já não sou mais quem fui a um segundo atrás
Será isso mais estranho que eu a mim mesmo?
Ou será inútil meu questionamento fugaz?
domingo, 15 de janeiro de 2012
Arquivo da Memória
Poesias
que quis trazer do outro blog
O que vai e deixa
ficar - 29/12/11
Tudo o que é efêmero
pode revelar
A eternidade
presente em si
Como se fosse a flor, o olhar
O cofre escondido que secreta a alma
E escoa o tempo na areia do movimento
Muda gente, sentimento e ideia
Mas que felicidade no olhar para trás:
Do eterno não se moveu uma pedra...
Como se fosse a flor, o olhar
O cofre escondido que secreta a alma
E escoa o tempo na areia do movimento
Muda gente, sentimento e ideia
Mas que felicidade no olhar para trás:
Do eterno não se moveu uma pedra...
Memórias do Rio e da baía - 09/12/11
Entrara como uma diva
Como se de todos a presença quisesse
Sabida do carmim que a boca cativa
Deixa ver a beleza daquele Tristesse
Cabelo que voa ao
mar beijando a orla
Sorriso pr'alem do
tocável, chegava de lado
Me tange e me queima
a negrura dos olhos
Como se eu pudesse
me largar sentado
Não fez-se mais
colorido o dia
Nem mesmo mais
viscoso o tempo
Mas o espasmo
daquele momento
Manteve em meu olhar
singela alegria
Tão fugaz quanto o
encanto do vento
Me escapas a revelia
das horas
Esqueces de mim, seco,
sem pensamento
Levas consigo o
charme que defloras
A confiança... -
07/11/11
é como uma flor que desabrocha
Sob o olhar da platéia da vida
(sem título) -
7/12/11
Não sei viver a tristeza
Tampouco a melancolia
quando me arraiga a beleza
ao fim deste longo dia
Não sei o que sinto à noite
Que toca minha'alma vazia
Parece o destino, uma foice,
No rosto uma lâmina fria
Não sei se é o sentido que falta
Que descobre o rosto na estrada
Ou o silêncio que teima e que volta
Deixando-me plena na madrugada
like a tree (ou encadeando) - 26/11/11
Às vezes me sinto podada
Às vezes sinto que me podo
Como uma árvore encanada
Que carrega seu próprio dolo
Às vezes o mundo me rasga
Às vezes o mundo ignoro
Como se fosse uma pedra dopada
Como se fosse um simples decoro
Tanta música me assalta a alma
Tanta música eu finjo que gosto
Como se fosse o som cadeado
Que embalasse esse tanto desgosto
Tanta inspiração que me toma
Tanta inspiração que eu devoro
Como se fosse carta marcada
Como se fosse o pau que me escoro
Sem título -
04/04/2010
Sempre o choro
acalenta quando teus braços faltam
Estes, que conhecem
tão bem meus pensamentos esguios,
Meu falso brio que
escorre dos lábios
Sentimentalismo
barato e diário
Pensamentos tolos...
Deixemos passar.
Esconderijo - 06/08/09
o tempo se esconde
entre os risos produzidos na sala,
pelos dedos no cabelo da amada
que sente macio e não deixa ficar
o tempo se esconde
no gesto que imita o
passado
em quem esquece
conselhos raros
dos que brevemente
se sentem enterrar
o tempo se esconde
nos vales que
crescem no rosto
inventando o limite
do corpo
que busca a
respiração ofegante
o tempo se esconde
no breu da alma, nos
cantos da mente
que diminuem
lentamente
a cada dia e
noite...
Pequeno - 05/05/09
Eu gosto do meu lugar e dele sinto falta.
O meu canto é quietinho, só pode ser preenchido por um eu
vazio,
um eu que a cada dia perde seu ninho...
O que eu queria mesmo era ser um bichinho
pra me engrenhar no meio das conversas e me beirar no céu
quando quisesse ficar sozinho.
inhoninhoininhoinho.
Autobiodigestor -
28/7/07
Ponho-me em frente ao espelho e o que vejo?
Esse é aquele que eu procuro
Ou sou eu disfarçado em mim mesmo?
As luzes da cidade lá embaixo iluminam a corrente de gente
Que a gente segue sem estar preso a correntes...
E é essa fluência que me faz perguntar
“O que me passa, Deus, o que me passa?”
Volto a beber meu chá quente.
É isso o que realmente importa, saber as respostas?
Entender o que me é pertinente?
Ou ser um descrente de tantas bobagens letradas e descuidadas,
Espalhadas por um ângulo qualquer de burrice?
Parto então cada palavra à sombra de uma falsa identidade
De um falso alfabetismo, que eu sequer preciso.
Parto de uma falsa verdade, esquecendo-me que ela não existe.
(agora é só um buraco no ventre)
Foi-se. E me intimida dizer que já não sei se ainda há o que fazer.
Ponho-me em frente ao espelho e o que vejo?
Esse é aquele que eu procuro
Ou sou eu disfarçado em mim mesmo?
As luzes da cidade lá embaixo iluminam a corrente de gente
Que a gente segue sem estar preso a correntes...
E é essa fluência que me faz perguntar
“O que me passa, Deus, o que me passa?”
Volto a beber meu chá quente.
É isso o que realmente importa, saber as respostas?
Entender o que me é pertinente?
Ou ser um descrente de tantas bobagens letradas e descuidadas,
Espalhadas por um ângulo qualquer de burrice?
Parto então cada palavra à sombra de uma falsa identidade
De um falso alfabetismo, que eu sequer preciso.
Parto de uma falsa verdade, esquecendo-me que ela não existe.
(agora é só um buraco no ventre)
Foi-se. E me intimida dizer que já não sei se ainda há o que fazer.
Arquivo da Memória
Textos que quis trazer do outro blog
Escrever pode
ajudar – 20/11/11
É muito triste
pensar em quantas pessoas queridas a gente perde ao longo da vida por pura
estupidez. Pela nossa, alheia ou ainda pela união das duas.
É difícil conter as lágrimas por enquanto. Eu só percebo quando uma ferida fecha quando a memória toca e não arde mais. No momento parece que a ferida é a mesma de antes, como aquela que eu tenho no pé quando volto a dançar. A pelezinha que sai do peito do meu pé direito toda vez que ajoelho depois de um salto. No entanto, eu sempre volto. Com band-aid, esparadrapo, micropore, eu sempre volto a dançar e fazer essa movimentação faz parte.
A pelezinha do coração que sai já saiu antes pelo mesmo motivo. E por mais que arda muito agora, eu não posso e muito menos quero parar de viver. E o mais importante é querer, assim como eu não quero devolver nada agora. Teve uma hora que ir embora de São Carlos parou de doer. E a memória passeia bastante pelo coração desta desterrada sem machucar. Mas foi necessária uma adaptação ao novo ambiente. Não que eu me sinta completa ou completamente feliz, pois a cada dia penso em me colocar numa posição diferente até achar o meu lugar.
E assim será, dessa vez e da próxima. Porque é isso que parece me incomodar mais, meu coração, assim como o peito do meu pé, cicatriza, mas sempre terá esse lugar onde a pele é mais frágil.
É difícil conter as lágrimas por enquanto. Eu só percebo quando uma ferida fecha quando a memória toca e não arde mais. No momento parece que a ferida é a mesma de antes, como aquela que eu tenho no pé quando volto a dançar. A pelezinha que sai do peito do meu pé direito toda vez que ajoelho depois de um salto. No entanto, eu sempre volto. Com band-aid, esparadrapo, micropore, eu sempre volto a dançar e fazer essa movimentação faz parte.
A pelezinha do coração que sai já saiu antes pelo mesmo motivo. E por mais que arda muito agora, eu não posso e muito menos quero parar de viver. E o mais importante é querer, assim como eu não quero devolver nada agora. Teve uma hora que ir embora de São Carlos parou de doer. E a memória passeia bastante pelo coração desta desterrada sem machucar. Mas foi necessária uma adaptação ao novo ambiente. Não que eu me sinta completa ou completamente feliz, pois a cada dia penso em me colocar numa posição diferente até achar o meu lugar.
E assim será, dessa vez e da próxima. Porque é isso que parece me incomodar mais, meu coração, assim como o peito do meu pé, cicatriza, mas sempre terá esse lugar onde a pele é mais frágil.
Inquietações
– 10/10/11
Cada vez que penso numa zona de
conforto, me aflijo. Até concordo com essa coisa Piagetiana do conflito, da
assimilação e da acomodação. Parece-me que é isso mesmo que move a gente, o
incômodo, e é certo que outros (Freud, Vygotsky, Klein) já falaram sobre
esse assunto. O que me "incomoda" é como lidamos com essa situação na
atualidade, tendo em vista que o mundo (a sociedade, as pessoas, everybody),
nos bombardeia com a idéia de cura rápida. Uma coisa meiofast-food mesmo.
Não parece ser permitido o tempo do sofrimento, da elaboração para a acomodação
de novos esquemas. Se dói a gente toma um remedinho. E toma um remedinho porque
não pode parar. Como assim, não pode parar? Como se não fossemos sujeitos de
nossa própria vida. Talvez, provavelmente, essa desapropriação de si seja
resultado de um processo sócio-histórico-econômico. Onde o trabalho toma parte
primordial da existência [adendo da transcritora: o produzir parece ter esse
papel, mais que o trabalho]. E com 80% da palavra trabalho quero dizer
chefe. Em última instância, o chefe é o dinheiro. Ficar doente causa
improdutividade do indivíduo e consequente improdutividade da organização. E se
a doença física é questionada e deve ser provada, as doenças da ordem da psique são
ignoradas, até mesmo quando se tornam físicas. Não há tempo para resolver o
incômodo nem para assimilar, tampouco para colocar as coisas no
lugar. Não há tempo para respirar antes da nova descarga do corpo.
Acho que a busca pela felicidade hoje
é a busca por um "colocar as coisas no lugar" [e aquietar o
"espírito"]. Ao mesmo tempo, me parece que a natureza humana
busca o ciclo, o aprender continuamente, o frustrar e o recolocar. Procurar a
felicidade na estabilidade (e nos livros de auto-ajuda) me parece bastante
fugaz. É como descer uma montanha com uma corda de meio metro acreditando que
ela vai aumentar por algum milagre. Talvez seja a hora de carar quando a corda
acaba, aceitar que acabou, recolhê-la e pensar em como continuar descendo; [o instrumento
está dado, a gente só tem que usar...]
tem ou sem Graça? – 28/09/11
Tudo parecia em preto e branco. Logo
hoje que vestira blusa verde, echarpe azul, óculos roxo. O tempo, o calor do
dia, parecia vencer-lhe pelo cansaço e tudo o que ela fazia era esperar. A
Graça via a noite passar sentada na janela do quarto enquanto ouvia sua música
favorita - o vaivém dos carros lá embaixo.
A Graça queria ir embora.
Mas por alguma razão deixava-se estar
no marasmo da rotina estafante. Marasmo... água. Tinha tantas vontades, mas a
visita a cachoeira era distante da sua realidade. Até perceber que a melhor
coisa a fazer era simplesmente fazer.
E a Graça se perdeu no mundo.
À sombra do pensamento – 04/09/11
Por alguns minutos resolvi pensar o
que significaria "a so(m)bra do pensamento". No dia em que resolvi
colocar esse subtítulo, por assim dizer, no blog, eu tinha pensado nos sentidos
de sombra e de sobra.
Sobra, seria simplesmente o que resta
do pensamento para ser escrito, aquilo que seria normalmente descartado. Então
o blog seria o lugar do fim das minhas idéias, da borra que ficou no fundo da
xícara. O blog seria o lugar do meu lixo externo, do lixo que consumo em minha
cabeça, nas entranhas, no coração.
Sombra, pensei ainda na mesma linha.
Seria o que não é o principal, o que fica pra trás quando o sol ou a luz batem.
É o que nos segue e a gente não presta atenção; a não ser que não esteja ali. O
blog era o lugar de olhar para a minha sombra como o prato primeiro a ser
ressignificado. Não, a minha sombra não. A Sombra do meu pensamento.
E o pensamento me traz uma sensação
de efemeridade. Isso porque a gente pensa uma porção de coisas que se vão com o
tempo, dure este 5 segundos ou 10 anos. Mas o pensamento que a gente escreve e
guarda, fica. Porque a memória é curta pra armazenar tanta frase, tanta idéia,
tanta sabedoria que a gente acumula ao longo dos anos. E pra isso existem os
livros. E pra mim, os blogs.
Mas hoje eu estava pensando
diferente. Eu olhei para esta frase e achei que ficaria melhor sem o parênteses
e com uma crase. À sombra do pensamento. Hoje eu achei que o melhor local para
estar era embaixo do meu pensamento, como a gente se abriga do sol embaixo de
uma árvore. E eu fiquei olhando a vida dalí, com a brisa fresca da tarde
batendo em meus cabelos e levando-os para longe longe...
Talvez ficar à sombra do pensamento
funcione como meu lugar de acalento, como se eu trocasse a gaveta da minha
cômoda, onde eu estava apertada e olhando pelas frestas, por essa grande árvore
que se chama "minha cabeça". Porque é uma árvore frutífera, que tem
folhas suficientes para me abrigar da luz, do calor. Onde eu posso sentar e
olhar sem medo.
Sobre o que toca enquanto tento me
esquecer – 28/08/11
A música preenchia meu espírito e
arrancava minhas lágrimas violentamente, como se representasse algo que eu
poderia ter vivido e não vivi. Sua grandeza melodiosa me enlevava e incomodava,
sentimento ambíguo muito comum na situação que eu vivia. Quando a gente perde
não sabe se está vazio do outro ou cheio de tristezas próprias. Prefiro o que
seja meu. E se o fim é triste, que seja intenso como foi o início.
Sigo ouvindo meu adágio cheio de
chorosos violinos esperando os pratos e tambores vívidos da coda.
Ao ouvir o Adágio da Rosa, from
Sleeping Beauty
Resiliência – 22/10/09
Estava de costas para ele, à janela.
Observava de longe a luz acesa esquecida em sua casa, distante algumas quadras.
Ele, ainda na cama, chamava-a de volta, como um diabético, que não pode ter seu
doce. Mas já a saboreara outras vezes; não entendia essa sua resistência, não
parecia estar cansada e isso seu vigor em lhe dar prazer revelara. Ela estava
distante, pediu para acender um cigarro e ele não deixou.
Fechou os olhos então. Estava nua à janela, cabelos ao vento suave, aquele era o inicio de primavera mais interessante de sua vida, tinha certeza. Por cima de seu ombro direito podia ver seus olhos verdes iluminados pela luz de fora. Estava cansado, seu corpo repousava sobre a cama, numa tranqüilidade muito sua. Piscava lentamente para ela, com o sorriso carnudo de sua boca muito vermelha. Ela suspirou e pediu um cigarro. Estendeu-lhe a mão, ela acendeu. Daquele vulto curvilíneo ele podia ver a fumaça serpentear para fora do quarto. Ela se preocupou com o cheiro e pediu que lhe abrisse a bolsa e achasse um creme de mãos qualquer esquecido há dias. As mãos cheias de rosa tocaram-lhe as pernas e as coxas e subiram até o rosto. Fitaram-se. Nada mais importava, estavam ali, a sós, íntimos. Naquele quarto onde tantas vezes se desencontraram.
Abriu os olhos. “Preciso ir”, disse secamente e ele continuou sem entender. Ela vestiu sua blusa, ele a calça. O caminho até a porta de entrada parecia longo, inóspito e, no fim, era apenas silêncio, limite dos segredos de cada um. Foi que o verde dos seus olhos lhe apareceu como um raio fulminante, na altura da cozinha, como se representasse uma mudança de planos. Ela titubeou, claramente, e os dois compreenderam a mentira de quando ele a perguntara sobre o seu apreço. Acenou com a cabeça. O outro se tornara mero coadjuvante em sua história. Cada vez que fechasse os olhos enxergaria os seus, de ninguém mais. Essa era a sua sina.
Fechou os olhos então. Estava nua à janela, cabelos ao vento suave, aquele era o inicio de primavera mais interessante de sua vida, tinha certeza. Por cima de seu ombro direito podia ver seus olhos verdes iluminados pela luz de fora. Estava cansado, seu corpo repousava sobre a cama, numa tranqüilidade muito sua. Piscava lentamente para ela, com o sorriso carnudo de sua boca muito vermelha. Ela suspirou e pediu um cigarro. Estendeu-lhe a mão, ela acendeu. Daquele vulto curvilíneo ele podia ver a fumaça serpentear para fora do quarto. Ela se preocupou com o cheiro e pediu que lhe abrisse a bolsa e achasse um creme de mãos qualquer esquecido há dias. As mãos cheias de rosa tocaram-lhe as pernas e as coxas e subiram até o rosto. Fitaram-se. Nada mais importava, estavam ali, a sós, íntimos. Naquele quarto onde tantas vezes se desencontraram.
Abriu os olhos. “Preciso ir”, disse secamente e ele continuou sem entender. Ela vestiu sua blusa, ele a calça. O caminho até a porta de entrada parecia longo, inóspito e, no fim, era apenas silêncio, limite dos segredos de cada um. Foi que o verde dos seus olhos lhe apareceu como um raio fulminante, na altura da cozinha, como se representasse uma mudança de planos. Ela titubeou, claramente, e os dois compreenderam a mentira de quando ele a perguntara sobre o seu apreço. Acenou com a cabeça. O outro se tornara mero coadjuvante em sua história. Cada vez que fechasse os olhos enxergaria os seus, de ninguém mais. Essa era a sua sina.
Essa
é a história de Carla... – 13/05/09
... é verdadeira. Aconteceu com uma amiga de
uma amiga minha.
Carla era uma menina feia e ele não ligava. Não que a amasse de verdade... Era o máximo que conseguira arrumar, após anos procurando pela mulher perfeita. Pensava que estes anos não valeram de nada; algumas imperfeitas se perderam pelo caminho - eram mais bonitas ou inteligentes que Carla.
Queria uma mulher para os outros. Alguém que os colegas invejassem, desejassem, adorassem - e que fosse apenas dele. Passara muito tempo sendo chamado de incoveniente, chato, insuportável e outros adjetivos menos apropriados para ficar com qualquer uma. Queria uma mulher para recordar.
Certa vez encontrou moça interessante, inteligente, brilhante. Era uma excelente parceira para todas as horas, tornou-se sua melhor amiga; paciente, ouvia-lha com uma atenção que ninguém lhe dispunha... Apaixonou-se por ela, e ela não por ele. A coisa toda é que ele era um cara bacana, mas não era seu irmão.
Fez de um tudo. Enlouqueceu, descabelou-se, futricou, contou mentiras. Nada adiantou. Ela era do irmão e os dois combinavam como bom queijo com bom vinho, numa mistura refinada de dar dó. Emburreceu-se e voltou à sua procura, enquanto o irmão levava, mais uma vez, os louros e a loira da vitória. Ela era apenas uma mulher para recordar.
E assim, fez história com a pobre Carla.
Ela acreditava que seu principe viria em um cavalo branco salvar-lhe dos homens terríveis que lhe apareceram na vida. Eram todos uns cachorros. E lindos. Já não procurava mais beleza nas flores, só queria alguém sem espinhos e isso tudo era compreensível; vivera com seu pai apenas, um homem indelicado e de hábitos grotescos.
A coisa toda é que Carla é tão sem graça que não quero discorrer sobre ela. Mas a mulher encontrou no homem a delicadeza de dama que esperava.
E nessa imperfeição e incorreção fizeram-se amantes. Completaram-se, e por menos que pareça um conto de fadas, vivem felizes até hoje. Ora, isso é verdade, aconteceu com uma amiga de uma amiga minha.
Carla era uma menina feia e ele não ligava. Não que a amasse de verdade... Era o máximo que conseguira arrumar, após anos procurando pela mulher perfeita. Pensava que estes anos não valeram de nada; algumas imperfeitas se perderam pelo caminho - eram mais bonitas ou inteligentes que Carla.
Queria uma mulher para os outros. Alguém que os colegas invejassem, desejassem, adorassem - e que fosse apenas dele. Passara muito tempo sendo chamado de incoveniente, chato, insuportável e outros adjetivos menos apropriados para ficar com qualquer uma. Queria uma mulher para recordar.
Certa vez encontrou moça interessante, inteligente, brilhante. Era uma excelente parceira para todas as horas, tornou-se sua melhor amiga; paciente, ouvia-lha com uma atenção que ninguém lhe dispunha... Apaixonou-se por ela, e ela não por ele. A coisa toda é que ele era um cara bacana, mas não era seu irmão.
Fez de um tudo. Enlouqueceu, descabelou-se, futricou, contou mentiras. Nada adiantou. Ela era do irmão e os dois combinavam como bom queijo com bom vinho, numa mistura refinada de dar dó. Emburreceu-se e voltou à sua procura, enquanto o irmão levava, mais uma vez, os louros e a loira da vitória. Ela era apenas uma mulher para recordar.
E assim, fez história com a pobre Carla.
Ela acreditava que seu principe viria em um cavalo branco salvar-lhe dos homens terríveis que lhe apareceram na vida. Eram todos uns cachorros. E lindos. Já não procurava mais beleza nas flores, só queria alguém sem espinhos e isso tudo era compreensível; vivera com seu pai apenas, um homem indelicado e de hábitos grotescos.
A coisa toda é que Carla é tão sem graça que não quero discorrer sobre ela. Mas a mulher encontrou no homem a delicadeza de dama que esperava.
E nessa imperfeição e incorreção fizeram-se amantes. Completaram-se, e por menos que pareça um conto de fadas, vivem felizes até hoje. Ora, isso é verdade, aconteceu com uma amiga de uma amiga minha.
Bolsa amarela – 18/11/08
Sabe, às vezes tudo o que eu queria era um
bolsa amarela, pra levar meu quintal a tiracolo.
O dia em que a mãe lhe
quebrou o coração - Fevereiro 03, 2008
"Você
não mora mais aqui, cale a boca".
Depois dessa enfática afirmação, resolvi calar-me e escutar a interessante discussão que prosseguia. E, de fato, não me restava falar mais nada. Já não morava na casa há dois anos e não podia dar qualquer opinião contrária a da pequena; bastava para ouvir deliciosas frases como a supracitada. Mas entendo a sua chateação.
A mãe não aguentava mais os cachorros e suas cacas no quintal; ela limpava, alimentava-os, comprava os produtos necessários para manter a ordem na casa. E urrava de dor cada vez que voltava para dentro, depois de lavar o extenso quintal, pois a coluna reclamava.
A pequena era apaixonada pelos bichos. Tirava dezenas de fotos diariamente, brincava com eles. Naqueles seus quase 15 anos não tinha muitos grandes amigos, salvo pelos dois saltitantes cachorros e uma menina, de quem não lembro ao certo o nome.
Um deles já era velho. Seus primeiros passos foram dados para acompanhar a pequena, que dava as suas primeiras pedaladas; eram felizes juntos, desde então. Ele só obedecia à ela. Era um fujão. Há alguns anos, comeu o portão de madeira que lhe fechava a casa, para dar suas voltinhas pela rua e atazanar a vizinhança. Mas bastava a menina aparecer, com certa rigidez no rosto, para que voltasse, sem dono, rabo entre as pernas. O problema era que ele nunca passeava com ela.
O outro era mais novo. Espuleta e enlouquecido, o outro. Saltava em pessoa qualquer que chegasse na casa e brincava de morder, o maldito. Apesar de seu tamanho médio, era muito jovem, cria do mais velho. O pobre mal tinha nome; cada um na casa dera um apelido. A pequena o amava e ele lhe retribuia o sentimento; afinal, cachorros também amam.
Mas a mãe já não tinha mais saúde nem dinheiro. E é essa hora que as pessoas fazem opções dolorosas em suas vidas. Reclamava que não podia pagar a comida e o material de limpeza ao mesmo tempo. Ah, e ninguém lhe ajudava. Os cachorros também fazem digestão quando chove! E depois de recolher as cacas de três dias seguidos, foi ter com a pequena que, agora esbaforida e desbocada, gritava aos prantos e aos vizinhos que tudo que mais amava lhe havia sido tirado.
"Se você cuidar, eles ficam".
E todo amor foi-se para o ralo com o cloro escorrido pelo quintal que, nesses tempos, a mãe lava apenas uma vez por semana.
Depois dessa enfática afirmação, resolvi calar-me e escutar a interessante discussão que prosseguia. E, de fato, não me restava falar mais nada. Já não morava na casa há dois anos e não podia dar qualquer opinião contrária a da pequena; bastava para ouvir deliciosas frases como a supracitada. Mas entendo a sua chateação.
A mãe não aguentava mais os cachorros e suas cacas no quintal; ela limpava, alimentava-os, comprava os produtos necessários para manter a ordem na casa. E urrava de dor cada vez que voltava para dentro, depois de lavar o extenso quintal, pois a coluna reclamava.
A pequena era apaixonada pelos bichos. Tirava dezenas de fotos diariamente, brincava com eles. Naqueles seus quase 15 anos não tinha muitos grandes amigos, salvo pelos dois saltitantes cachorros e uma menina, de quem não lembro ao certo o nome.
Um deles já era velho. Seus primeiros passos foram dados para acompanhar a pequena, que dava as suas primeiras pedaladas; eram felizes juntos, desde então. Ele só obedecia à ela. Era um fujão. Há alguns anos, comeu o portão de madeira que lhe fechava a casa, para dar suas voltinhas pela rua e atazanar a vizinhança. Mas bastava a menina aparecer, com certa rigidez no rosto, para que voltasse, sem dono, rabo entre as pernas. O problema era que ele nunca passeava com ela.
O outro era mais novo. Espuleta e enlouquecido, o outro. Saltava em pessoa qualquer que chegasse na casa e brincava de morder, o maldito. Apesar de seu tamanho médio, era muito jovem, cria do mais velho. O pobre mal tinha nome; cada um na casa dera um apelido. A pequena o amava e ele lhe retribuia o sentimento; afinal, cachorros também amam.
Mas a mãe já não tinha mais saúde nem dinheiro. E é essa hora que as pessoas fazem opções dolorosas em suas vidas. Reclamava que não podia pagar a comida e o material de limpeza ao mesmo tempo. Ah, e ninguém lhe ajudava. Os cachorros também fazem digestão quando chove! E depois de recolher as cacas de três dias seguidos, foi ter com a pequena que, agora esbaforida e desbocada, gritava aos prantos e aos vizinhos que tudo que mais amava lhe havia sido tirado.
"Se você cuidar, eles ficam".
E todo amor foi-se para o ralo com o cloro escorrido pelo quintal que, nesses tempos, a mãe lava apenas uma vez por semana.
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